A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) prepara a implantação de uma nova graduação voltada especificamente à formação de professores indígenas no Câmpus do Araguaia, em Barra do Garças. A Licenciatura Intercultural Indígena, aprovada pelo Ministério da Educação (MEC), terá inicialmente como público estudantes do povo A’uwẽ Uptabi, conhecido como Xavante, e deve abrir 50 vagas na primeira turma.
A proposta representa um passo importante para a educação indígena no Médio Araguaia porque foi pensada para aproximar a formação universitária da realidade das comunidades. Em vez de exigir que professores indígenas deixem seus territórios para buscar uma graduação distante, o curso pretende articular os conhecimentos acadêmicos com a língua, a cultura, os saberes tradicionais e as necessidades das escolas indígenas.
A criação da graduação ocorre depois de anos de articulação entre lideranças indígenas, pesquisadores, professores da UFMT e o Ministério da Educação. Segundo a proposta, as primeiras visitas às aldeias já começaram para que a universidade conheça diretamente as demandas das comunidades e organize as próximas etapas de implantação.
A presença da UFMT nessa área não começa agora. A universidade já desenvolve iniciativas relacionadas à formação de professores indígenas, à educação intercultural e à produção de materiais didáticos em línguas indígenas. Projetos anteriores da instituição, por exemplo, envolveram materiais bilíngues e ações de formação para professores de diferentes povos de Mato Grosso, incluindo os Xavante.
Para a direção do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), responsável pela oferta, a implantação do curso também possui um significado simbólico: a universidade passa a ser um espaço ocupado pelos próprios povos indígenas, ao mesmo tempo em que a formação busca fortalecer o direito à educação dentro das comunidades.
A primeira turma terá formação prevista para quatro anos. O curso será destinado a professores que atuarão nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio e contará com duas áreas de habilitação: Linguagens e Humanidades; e Ciências da Natureza e Matemática.
Além das disciplinas acadêmicas, a graduação deverá envolver pesquisa, extensão, estágio supervisionado e produção de materiais didáticos relacionados às realidades das escolas indígenas. A intenção é que os futuros professores possam utilizar o conhecimento adquirido diretamente em suas comunidades, sem que a formação provoque um afastamento de sua cultura e de seus territórios.
Um dos principais diferenciais será a adoção da chamada pedagogia da alternância. O modelo divide a formação entre o chamado “tempo escola”, com atividades presenciais concentradas no Câmpus do Araguaia, e o “tempo comunidade”, quando os estudantes retornam às aldeias para desenvolver atividades pedagógicas, estágios, pesquisas e ações de extensão.
A metodologia é especialmente relevante para a formação indígena porque permite que a universidade e as comunidades mantenham uma relação contínua. Experiências de formação intercultural em outras instituições brasileiras também utilizam etapas realizadas na universidade e períodos desenvolvidos nas aldeias, justamente para relacionar o conhecimento acadêmico às práticas e aos contextos socioculturais de cada povo.
Uma conquista construída ao longo de anos
Para as lideranças Xavante envolvidas no projeto, a criação da graduação é resultado de uma mobilização que começou há muitos anos. A busca por uma formação superior específica teria sido intensificada a partir de 2009, quando representantes do povo passaram a discutir alternativas para qualificar os professores indígenas sem obrigá-los a deixar suas famílias e comunidades por longos períodos.
A necessidade é particularmente importante em uma região com forte presença Xavante. A Coordenação Regional Xavante da Funai está sediada em Barra do Garças e atua em diversos municípios do sudeste de Mato Grosso. Segundo a Funai, a área de atuação regional reúne aproximadamente 16,8 mil indígenas.
A formação universitária construída em parceria com as comunidades busca, portanto, superar uma lógica em que apenas os conhecimentos acadêmicos são considerados legítimos. A proposta intercultural parte da ideia de que os conhecimentos tradicionais também fazem parte do processo de formação e podem dialogar com as ciências ensinadas na universidade.
Esse princípio é importante para a preservação da identidade indígena. Estudos realizados anteriormente sobre a educação Xavante na região de Barra do Garças já apontavam desafios relacionados à presença de estudantes indígenas em escolas e espaços urbanos e à necessidade de valorizar sua língua e seus referenciais culturais.
A experiência acumulada pela UFMT em projetos de educação intercultural também contribui para esse processo. A universidade participa de iniciativas voltadas ao fortalecimento da alfabetização em línguas indígenas, à produção de materiais didáticos e à formação de professores de diferentes povos de Mato Grosso.
Próximas etapas
Antes do início das aulas, a UFMT ainda precisa concluir etapas administrativas e acadêmicas, entre elas a atualização do Projeto Pedagógico do Curso, a organização do cronograma de implantação e a publicação dos editais para seleção dos estudantes e dos professores colaboradores.
A previsão apresentada pela universidade é que o processo seletivo ocorra ainda em 2026 e que a primeira turma comece as atividades no primeiro semestre de 2027.
A expectativa é que as 50 vagas sejam destinadas a candidatos indígenas que cumpram os requisitos definidos no processo seletivo, entre eles ter concluído o Ensino Médio e comprovar pertencimento a um povo indígena.
Mais do que criar uma nova graduação, a iniciativa representa uma mudança na relação entre universidade e comunidade: a formação de professores passa a ser construída com participação indígena e voltada para as necessidades concretas das escolas e aldeias. Para o povo Xavante, a chegada desse curso ao território de atuação pode significar mais professores formados para ensinar às novas gerações sem deixar de lado a língua, a cultura, a identidade e os conhecimentos tradicionais.