Mesmo com o voto facultativo para pessoas com mais de 70 anos, eleitoras idosas de diferentes regiões do Brasil estão se mobilizando para comparecer às urnas no segundo turno das eleições, marcado para este domingo (25). Para muitas delas, votar representa mais do que escolher um candidato: é uma forma de defender direitos, participar da democracia e transmitir às novas gerações a importância da participação política.
Um dos exemplos é o de Maria Alaídes Alves de Souza, de 71 anos, quebradeira de coco babaçu da comunidade de Ludovico, em Lago do Junco, no Maranhão. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, ela percorreu cerca de 600 metros para chegar ao local de votação.
A participação de Maria, porém, vai além do próprio voto. Como liderança de um movimento de quebradeiras de coco babaçu, ela também procura incentivar outras mulheres idosas de comunidades rurais a exercerem o direito de votar. A mobilização alcança localidades próximas, como São José, Mata dos Reis, Marajá Alto Alegre, Estirão e Pau Seco.
A preocupação tem relação com a importância que o voto possui para comunidades que dependem diretamente de políticas públicas. Entre as pautas defendidas por Maria está o enfrentamento das mudanças climáticas, que afetam o trabalho das quebradeiras de coco. Estima-se que mais de 300 mil mulheres atuem nessa atividade nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.
O cenário nacional mostra que a participação dos eleitores acima de 70 anos vem aumentando. Segundo levantamento do Movimento Voto 70+, a abstenção nessa faixa etária caiu de 58,8% no primeiro turno de 2022 para 49,1% no primeiro turno de 2026, uma redução de quase dez pontos percentuais.
Apesar de não serem obrigadas a votar, essas pessoas continuam podendo participar normalmente das eleições. É justamente para estimular essa participação que o movimento apartidário promove a campanha Vovó Vota, que busca aproximar avós e netos e reforçar que quem não votou no primeiro turno ainda pode votar no segundo.
A história de Maria Albino Costa, de 85 anos, mostra como essa decisão pode mudar de acordo com as circunstâncias. Moradora de Orizona, em Goiás, ela não participou do primeiro turno porque considerou difícil lidar com a quantidade de cargos e candidatos. No segundo turno, porém, decidiu comparecer às urnas, já que a votação será destinada apenas ao cargo de presidente.
A filha e a neta vão acompanhá-la até o local de votação. Para Maria, a escolha também está relacionada à defesa de direitos que considera importantes. Sua trajetória inclui trabalhos na zona rural, como merendeira e empregada doméstica, além de uma longa lembrança do período em que os brasileiros ficaram sem escolher diretamente o presidente durante a ditadura militar.
Ela também deseja ser exemplo para sua família, formada por sete filhos, 22 netos, seis bisnetos e um tataraneto. A filha, Sandra Oliveira, professora de 48 anos, costuma utilizar a história da mãe em suas aulas para mostrar como mulheres de gerações anteriores enfrentaram períodos em que seus direitos políticos eram mais restritos.
Outra eleitora que decidiu voltar às urnas é Maria José Cantarelli, de 80 anos, de Olinda, Pernambuco. Ela estava afastada das eleições havia cerca de 12 anos e não votou no primeiro turno. Após conversar com os filhos e a neta, decidiu participar do segundo turno.
O receio provocado pelo ambiente de tensão política, entretanto, ainda é uma preocupação para ela. Maria José afirma que o clima de conflitos e agressividade contribuiu para seu afastamento das eleições. Mesmo assim, decidiu procurar uma forma de participar novamente e já utiliza o aplicativo e-Título para se preparar para a votação.
Em outros casos, o desejo de votar está diretamente ligado às lembranças de uma época em que muitas pessoas não tinham acesso aos mesmos direitos e oportunidades. Francisca Barroso Monteiro, de 84 anos, moradora de Nova Iorque, no Maranhão, associa sua participação eleitoral à luta por educação e melhores condições de vida para os filhos.
Ela conta que não teve oportunidade de estudar, mas fez questão de garantir que seus dez filhos frequentassem a escola. Agora, espera que os representantes escolhidos pela população defendam políticas públicas capazes de atender principalmente crianças e idosos.
Além da decisão de votar, as dificuldades encontradas nos locais de votação também aparecem entre as preocupações dos eleitores mais velhos. No primeiro turno, Prazeres Maria da Silva Antunes, de 72 anos, no Rio de Janeiro, relatou ter enfrentado demora e filas antes de conseguir votar. Já Beatriz Cintra Labaki, de 79 anos, em São Paulo, precisou subir escadas para chegar à seção eleitoral.
A legislação eleitoral prevê atendimento prioritário para pessoas idosas e determina que sejam adotadas medidas de acessibilidade para garantir que o eleitor consiga exercer seu direito com segurança e autonomia. Na prática, relatos como esses mostram a importância de que essas regras sejam efetivamente respeitadas em todos os locais de votação.
Para muitas dessas mulheres, entretanto, o significado do voto ultrapassa as dificuldades encontradas no caminho. Suely Mendonça, de 79 anos, do Rio de Janeiro, relaciona o momento de votar às próprias memórias sobre a ditadura militar, a censura e o processo de redemocratização do país.
Ela participou das mobilizações pelas Diretas Já e considera o voto uma maneira de continuar participando da vida pública. Sua experiência também evidencia que, para parte da população idosa, votar é uma conquista associada a décadas de transformações políticas no Brasil.
A participação das pessoas com mais de 70 anos no segundo turno, portanto, carrega diferentes significados. Para algumas, representa a defesa de direitos sociais; para outras, uma forma de preservar a memória democrática ou simplesmente continuar exercendo uma escolha que consideram importante.
Neste domingo (25), essas eleitoras voltarão às urnas não por obrigação, mas por decisão própria. Em comum, carregam histórias de trabalho, família, dificuldades e transformações sociais que ajudam a mostrar que a democracia também é construída pela participação daqueles que escolheram continuar fazendo parte dela.