A Prefeitura de São Paulo investiu R$ 11,3 bilhões entre 2021 e 2026 em obras de drenagem, controle de cheias e combate a enchentes, mais que o dobro do valor aplicado entre 2011 e 2020. O aumento dos recursos faz parte de uma estratégia para preparar a maior cidade do país para eventos de chuva intensa, que podem se tornar mais frequentes e severos em um cenário de mudanças climáticas.
O investimento inclui obras tradicionais de infraestrutura, como reservatórios, canalização de córregos e recuperação de galerias, mas também medidas baseadas na natureza. Entre elas estão os chamados “parques esponja”, jardins de chuva e a ampliação de áreas verdes, que ajudam a absorver e reter parte da água antes que ela chegue à rede de drenagem.
Desde 2021, segundo a Prefeitura, 756 obras relacionadas à drenagem, ao controle de cheias e à redução de riscos foram concluídas. Entre os trabalhos estão nove reservatórios entregues e mais de 62 mil metros de galerias e córregos recuperados. Outras 60 intervenções permanecem em andamento, incluindo obras em córregos e novos reservatórios.
Os reservatórios têm papel importante porque funcionam como áreas temporárias de armazenamento durante períodos de chuva intensa. De acordo com dados municipais, seis estruturas já entregues e outras dez em obras devem elevar em cerca de 27% a capacidade de reservação do sistema de drenagem, passando de aproximadamente 6,9 milhões para 8,8 milhões de metros cúbicos. A estimativa da Prefeitura é que essas estruturas contribuam para reduzir em cerca de 1,37 milhão de metros quadrados a área sujeita a alagamentos.
Um dos projetos em andamento é o Reservatório Lapenna, na Zona Leste, que terá capacidade para armazenar 52 mil metros cúbicos de água. A estrutura foi planejada para ampliar a capacidade de controle das cheias na região de São Miguel Paulista.
Além das grandes obras, a manutenção da infraestrutura também faz parte da estratégia. Até setembro de 2026, a Prefeitura informou ter retirado mais de 149 mil toneladas de detritos de córregos e realizado a limpeza de aproximadamente 149 mil bueiros, poços de visita e galerias. A cidade também ampliou o número de equipes responsáveis pela conservação desses sistemas.
Outra frente é a chamada infraestrutura verde. Entre 2021 e 2026, foram criados 16 novos parques públicos, totalizando 5,5 milhões de metros quadrados de novas áreas verdes. A capital também passou a contar com centenas de jardins de chuva, estruturas que permitem que parte da água se infiltre no solo em vez de escoar rapidamente pelas ruas.
Esse tipo de solução ganhou importância porque o problema das enchentes não depende apenas da quantidade de chuva. A impermeabilização do solo, provocada pela presença de asfalto e concreto, dificulta a infiltração da água e aumenta o volume que precisa ser conduzido pelas galerias e córregos. Por isso, combinar grandes obras de engenharia com áreas capazes de absorver água é uma das estratégias adotadas pela administração municipal.
Os dados apresentados pela Prefeitura apontam uma redução recente nos registros de alagamentos. Entre janeiro e agosto de 2026, foram contabilizadas 457 ocorrências de alagamento e inundação, contra 593 no mesmo período de 2025, uma queda de 23%. Considerando o período chuvoso de 2025 para 2026, o município também registrou redução de aproximadamente 55% no número de vias públicas alagadas, de 860 para 380.
Paralelamente às obras, São Paulo criou o Orçamento Climático, mecanismo que procura incorporar a questão ambiental diretamente ao planejamento financeiro do município. Para 2026, foram previstos R$ 28,8 bilhões dentro dessa estrutura, permitindo acompanhar recursos destinados a ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. O modelo foi estruturado por decreto em 2025 e está relacionado às metas do PlanClima SP e ao planejamento municipal até 2050.
O orçamento climático não se limita às obras contra enchentes. A proposta envolve diferentes áreas da administração, como transporte, meio ambiente, planejamento e infraestrutura, buscando identificar quanto dos recursos públicos está relacionado ao enfrentamento das mudanças climáticas e à preparação da cidade para seus impactos.
Para 2027, a Prefeitura prevê mais R$ 2,37 bilhões para drenagem, dentro do Projeto de Lei Orçamentária enviado à Câmara Municipal. O valor inclui investimentos na construção de reservatórios e na manutenção dos sistemas de drenagem.
A dimensão dos investimentos mostra que o combate às enchentes deixou de depender apenas de intervenções emergenciais após grandes temporais. A estratégia adotada pela capital busca combinar obras, manutenção, áreas verdes e planejamento de longo prazo para reduzir os impactos de eventos extremos sobre moradores, trânsito, transporte e infraestrutura urbana.
Ainda assim, os investimentos não eliminam completamente o risco de alagamentos em uma cidade do tamanho de São Paulo. Chuvas muito intensas em períodos curtos podem superar a capacidade de qualquer sistema de drenagem. Por isso, especialistas e gestores públicos defendem que a adaptação climática seja contínua, envolvendo infraestrutura, planejamento urbano, preservação ambiental e sistemas de prevenção e alerta.