O evento era de lançamento de pré-candidatura, mas o que aconteceu nos bastidores roubou a cena antes mesmo de o discurso principal começar. Dois homens foram retirados por seguranças do hotel em Campinas onde Guilherme Derrite lançava sua candidatura ao Senado, pouco antes de Flávio Bolsonaro subir ao palco. Eles usavam pulseiras de imprensa, gravavam o evento e se identificaram como André Cardoso e Gabriel Sesonelli, responsáveis por um canal de direita no YouTube com pouco mais de 34 mil inscritos. O motivo da retirada, segundo eles, foi terem feito críticas a Flávio e ao governador Tarcísio de Freitas durante as gravações.
André conta que foram chamados de petistas por parte da plateia. A acusação, vinda de um público que também se identifica com a direita, expõe uma linha divisória que o bolsonarismo impõe até mesmo dentro do próprio campo conservador: quem não se alinha integralmente ao ex-presidente e seus herdeiros políticos é tratado como adversário. Nós somos de direita, mas não somos bolsonaristas, disse André ao g1. A declaração resume o incômodo de uma parcela do eleitorado que se vê excluída de um espaço político que antes ocupava.
O palco do evento reuniu figuras de peso da oposição. Além de Flávio, estiveram presentes Tarcísio de Freitas, os senadores Sergio Moro e Rogério Marinho, e o deputado federal Maurício Neves. Moro, em seu discurso, tentou desviar o foco do escândalo que ganhou as manchetes na semana anterior: as conversas entre Flávio e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Podem falar o que quiserem, podem tentar inverter as narrativas. O escândalo do Banco Master é um escândalo do governo do PT, afirmou. A declaração, no entanto, não apaga o fato de que o senador do PL foi flagrado tratando Vorcaro como irmão e pedindo dinheiro para financiar um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro.
A reportagem do Intercept Brasil, publicada na quarta-feira, revelou áudios e mensagens em que Flávio cobra valores do banqueiro para bancar a cinebiografia Dark Horse. Vorcaro teria desembolsado R$ 61 milhões, valor que a Polícia Federal investiga se foi usado também para sustentar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Em entrevista posterior, Flávio admitiu ter mentido ao negar publicamente qualquer relação com Vorcaro. Justificou-se com uma cláusula de confidencialidade e disse que o contato era exclusivamente para tratar do projeto audiovisual. Se eu falasse que conhecia o Vorcaro, a pergunta seguinte seria qual a minha relação com ele. Eu teria que falar do filme. Foi só por isso que me eximi, alegou.
A defesa não convenceu o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, também pré-candidato à Presidência. Na quarta, Zema classificou a conduta do senador como imperdoável e um tapa na cara dos brasileiros de bem. Nesta sexta, Flávio rebateu dizendo que Zema se precipitou, foi induzido a erro no afã de querer ser o primeiro a falar alguma coisa, e aproveitou para cutucar a origem mineira do governador. Normalmente, o mineiro é uma pessoa que tem calma na hora de falar, não tem essa velocidade do Zema. Geralmente, é uma pessoa que pensa mais, raciocina e depois se posiciona, disse.
O presidente do Partido Progressistas, senador Ciro Nogueira, investigado na nova fase da Operação Compliance Zero, não compareceu ao evento. Sua ausência, num lançamento que reuniu o alto escalão da oposição, não passou despercebida. Enquanto isso, em Campinas, dois youtubers de direita que ousaram criticar o bolsonarismo aprenderam na prática que, no atual cenário político, não basta estar do mesmo lado — é preciso estar na mesma linha.