Ela perdeu o emprego, o carro e hoje enfrenta uma dívida que ultrapassa os 800 mil reais. Essa é a história de Maria, nome fictício de uma servidora pública de 49 anos que viu a vida desmoronar depois que o hábito de fazer pequenas apostas online se transformou em um vício devastador. Natural do interior do Rio de Janeiro, Maria tinha uma vida organizada e uma reputação sólida — até os jogos de azar atravessarem seu caminho.
Tudo começou de forma aparentemente inofensiva. Dois links, um de cinco e outro de dez reais, para apostar em um jogo que acompanhava a subida de um aviãozinho. No início, havia a sensação de controle sobre o passatempo. Mas com o tempo, foi o hábito que passou a controlá-la.
Um dos episódios mais marcantes aconteceu em 19 de março de 2024, dia dedicado a São José, santo de devoção de Maria. Na ocasião, ela acumulou 100 mil reais em uma plataforma de apostas. Se tivesse conseguido esperar os dias necessários para sacar o valor completo — a plataforma só permitia retiradas de 5 mil reais por dia —, a quantia poderia ter mudado sua vida. Mas não foi o que aconteceu. Em cerca de quatro horas, ela perdeu os 95 mil restantes e ainda colocou mais dinheiro para continuar jogando.
Esse padrão é frequente na ludopatia, o vício em jogos de azar. Ao perder, a pessoa tende a apostar mais para tentar recuperar. Quando ganha, joga com o que ganhou. E, como também é comum entre quem enfrenta esse tipo de dependência, Maria sempre jogava sozinha, escondida de familiares e amigos.
Quando percebeu, já havia perdido o emprego, o carro e estava vendendo objetos pessoais para tentar lidar com as dívidas. Foi nesse momento que pensou em tirar a própria vida. A rede de apoio familiar, no entanto, foi fundamental para que ela pudesse recomeçar.
As irmãs de Maria tiraram o celular de perto dela por cerca de três meses. O dinheiro que recebia passava diretamente para a conta de uma delas. Serviços de saúde mental e grupos de apoio também fizeram parte do processo de recuperação.
Atualmente, Maria está há um ano e cinco meses sem apostar, mas prefere dizer que está abstinente e não curada. Ela ainda responde a processos por dinheiro que pegou emprestado e não conseguiu pagar.
O caso escancara uma realidade preocupante no país. Dados mostram que os brasileiros gastam cerca de 30 bilhões de reais por ano com apostas esportivas e jogos de azar na internet. Especialistas alertam que é preciso enxergar o vício em jogos como um adoecimento mental, e não moral. Muitas pessoas que sofrem com a ludopatia, assim como Maria, relatam um julgamento social que só dificulta o enfrentamento da condição.