CentroesteNews
07/01/2026
A queda do ex-presidente Jair Bolsonaro dentro da cela da Polícia Federal, na madrugada desta terça-feira (7), foi rapidamente convertida em discurso político por aliados. Um dos mais enfáticos foi o senador Wellington Fagundes (PL), que pediu orações e classificou Bolsonaro como um “ser humano sacrificado”, mesmo diante de uma condenação por tentativa de golpe de Estado.
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Bolsonaro bateu a cabeça em um móvel ao lado da cama e, segundo a Polícia Federal, sofreu apenas ferimentos leves. Ainda assim, a família do ex-presidente divulgou a versão de que ele teria tido um traumatismo cranioencefálico leve, narrativa que embasou o pedido de transferência para um hospital particular, autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes para realização de exames.
Em entrevista à TV Vila Real, Wellington Fagundes adotou um tom dramático ao comentar o episódio. Disse estar preocupado com a saúde e a vida de Bolsonaro e convocou os brasileiros “que têm fé” a rezarem pelo ex-presidente, retratado por ele como vítima de sofrimento extremo. A fala ignora o fato de Bolsonaro cumprir pena após condenação judicial, tratando a prisão como martírio pessoal.
O gesto do senador, no entanto, vai além da solidariedade. Nos bastidores da política mato-grossense, Fagundes tenta se reposicionar junto ao eleitorado da extrema-direita, que ainda desconfia de suas antigas alianças com setores da esquerda. Incensar Bolsonaro virou estratégia eleitoral, especialmente com o horizonte da disputa pelo governo do Estado.
O contraste com o passado recente é inevitável. Durante a pandemia da Covid-19, Jair Bolsonaro adotou uma postura marcada pelo desprezo à dor coletiva. Minimizar a gravidade da doença, ironizar vítimas, atrasar a compra de vacinas e desacreditar a ciência foram atitudes recorrentes de seu governo. Frases como “é só uma gripezinha”, “e daí, não sou coveiro” e “todos nós vamos morrer um dia” ficaram gravadas na memória nacional.
Enquanto mais de 700 mil brasileiros perderam a vida e milhares de crianças ficaram órfãs, o então presidente ria, simulava tosse em eventos públicos e atacava medidas de proteção sanitária. O negacionismo oficial contribuiu diretamente para o agravamento da crise sanitária e para mortes evitáveis, um legado que ainda não foi plenamente julgado.
Diante desse histórico, o apelo por compaixão soa seletivo. A tentativa de vitimizar Bolsonaro, agora fragilizado pela prisão, não apaga a ausência total de empatia demonstrada por ele quando ocupava o cargo mais alto da República. O choro, as narrativas de adoecimento e as manobras para deixar a cela não representam arrependimento, mas estratégia.
Transformar esse episódio em espetáculo político é um escândalo moral diante da sociedade brasileira, e especialmente dos que perderam familiares durante a pandemia. Pedir orações é legítimo; usar a fé como ferramenta eleitoral para reabilitar uma figura marcada por negligência e desprezo pela vida é outra história.