O governo do presidente Donald Trump deu um passo decisivo nesta segunda-feira ao anunciar que a ofensiva contra o chamado cartel da carne nos Estados Unidos ganhou uma nova e mais agressiva proporção. O foco das autoridades americanas recai diretamente sobre as quatro gigantes que dominam quase a totalidade do setor, com um olhar especialmente crítico sobre as brasileiras JBS e Marfrig, que controla a National Beef.
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A investigação antitruste, que já vinha sendo desenhada desde o final do ano passado, agora escala para uma fase de escrutínio profundo por parte do Departamento de Justiça, o DOJ, sob a suspeita de que essas empresas estariam manipulando preços e agindo de forma coordenada para sufocar a concorrência e comprometer a segurança alimentar em solo americano.
Durante uma coletiva de imprensa em Washington, o procurador-geral interino Todd Blanche revelou a magnitude do trabalho que vem sendo realizado, destacando que mais de 3 milhões de documentos já foram analisados e centenas de produtores e processadores foram ouvidos desde que Trump assinou uma ordem executiva determinando a abertura do caso.
Para Blanche, a estrutura atual do mercado, onde pouquíssimos nomes detêm o poder de decisão, é um terreno fértil para atividades anticompetitivas que prejudicam tanto quem produz quanto quem consome. O cenário descrito pelas autoridades é de uma concentração alarmante, já que apenas quatro companhias — JBS USA, Cargill, National Beef e Tyson Foods — controlam 85% do mercado de carne bovina nos Estados Unidos, um salto gigantesco se comparado aos 36% que o grupo detinha na década de 1980.
A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, enfatizou que essa dominação deixa os pecuaristas americanos sem alternativas de venda e torna o sistema extremamente vulnerável a qualquer tipo de crise, seja ela sanitária, cibernética ou climática. No entanto, o tom da administração Trump carrega uma camada extra de tensão diplomática e econômica ao destacar que metade desse grupo dominante possui controle estrangeiro, referindo-se especificamente ao capital brasileiro. Rollins chegou a classificar essa presença internacional como uma ameaça que extrapola o campo da pecuária, atingindo a própria soberania e segurança nacional dos Estados Unidos.
A narrativa oficial ganhou contornos ainda mais fortes com as declarações de Peter Navarro, diretor de Comércio e Manufatura da Casa Branca, que não poupou críticas à conduta da JBS. Ele acusou a empresa de tentar influenciar o sistema político americano com volumes massivos de recursos e de usar o abastecimento de carne como uma ferramenta de pressão. Segundo Navarro, após a imposição de tarifas ao Brasil no ano passado, o lobby da carne teria ameaçado a Casa Branca e redirecionado carregamentos que deveriam suprir o mercado americano para a China. Esse braço de ferro ocorre em um momento de inflação sensível, com os preços da carne bovina no atacado registrando uma alta de quase 20% em relação ao ano anterior, o que aumenta a urgência política do tema para Trump.
Para fechar o cerco e acelerar a coleta de provas, o Departamento de Justiça anunciou uma estratégia de incentivo financeiro para delatores. Qualquer pessoa que apresentar informações cruciais que resultem em penalidades criminais superiores a $ 1 milhão poderá receber entre 15% e 30% dos valores recuperados. É uma tentativa clara de romper o silêncio dentro da indústria e expor as engrenagens do que o governo classifica como um esquema ilegal de fixação de preços. Enquanto a investigação avança, o silêncio das empresas citadas até o momento apenas aumenta a expectativa sobre os próximos capítulos dessa disputa que coloca o império dos frigoríficos brasileiros no centro de uma tempestade política e jurídica na maior economia do mundo.