O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concluiu uma das maiores ofensivas dos últimos anos contra o garimpo ilegal na Amazônia. A Operação Xapiri Mebêngôkré foi realizada em áreas remotas do sul do Pará, na bacia hidrográfica do Xingu, e teve como principal objetivo interromper a exploração clandestina de minérios nas Terras Indígenas Kayapó e Kuruaya, territórios considerados estratégicos para a conservação ambiental e a proteção dos povos originários.
De acordo com o balanço oficial, a operação causou prejuízo estimado em mais de R$ 33 milhões às organizações criminosas responsáveis pela atividade ilegal. Durante as ações de fiscalização, os agentes inutilizaram 45 escavadeiras hidráulicas, 81 motores e uma balsa empregada na extração de ouro, além de tratores, caminhões, caminhonetes, motocicletas, quadriciclos, geradores, grandes volumes de combustível, equipamentos de internet via satélite, armas, munições e estruturas utilizadas como acampamentos de apoio ao garimpo.
A operação foi planejada para atuar em uma das regiões mais isoladas da Amazônia, onde a ausência de estradas e a grande distância dos centros urbanos tornam extremamente difícil a retirada dos equipamentos apreendidos. Segundo o Ibama, nessas circunstâncias, a destruição imediata do maquinário foi a única medida capaz de impedir que os criminosos retomassem as atividades poucas horas após a saída das equipes de fiscalização.
Para garantir a eficácia da operação, o instituto mobilizou uma complexa estrutura logística, com utilização de helicópteros, bases estratégicas de apoio e atuação integrada com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Polícia Federal durante a primeira fase dos trabalhos. A ação também permitiu a coleta de informações que poderão subsidiar futuras investigações sobre as organizações responsáveis pelo financiamento e pela logística do garimpo ilegal.
Danos ambientais de longo prazo
Embora a exploração ilegal de ouro tenha forte impacto econômico para as organizações criminosas, seus efeitos mais graves recaem sobre o meio ambiente e sobre as comunidades indígenas. A atividade promove intenso desmatamento, abertura de grandes crateras, assoreamento de rios e igarapés e libera mercúrio e outros contaminantes nos cursos d’água utilizados para abastecimento e alimentação das populações locais.
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Especialistas alertam que a contaminação por mercúrio compromete peixes, animais silvestres e toda a cadeia alimentar, podendo provocar problemas neurológicos, alterações no desenvolvimento infantil e outros impactos à saúde humana. Além disso, a destruição da cobertura vegetal reduz a capacidade de regeneração da floresta e ameaça espécies da fauna e da flora típicas da Amazônia.
Terras indígenas desempenham papel estratégico
As Terras Indígenas Kayapó e Kuruaya representam importantes barreiras naturais contra o avanço do desmatamento na Amazônia. Diversos estudos demonstram que áreas protegidas apresentam índices significativamente menores de degradação ambiental quando comparadas a regiões vizinhas ocupadas por atividades ilegais.
Para o Ibama, proteger esses territórios significa preservar não apenas os modos de vida dos povos indígenas, mas também recursos hídricos essenciais para a bacia do Xingu, um dos principais sistemas fluviais da Amazônia brasileira.
O próprio nome da operação reflete esse compromisso. “Xapiri” faz referência aos espíritos protetores da floresta na tradição Yanomami, denominação utilizada pelo Ibama para operações de combate ao garimpo em terras indígenas. Já “Mebêngôkré” é a forma como o povo Kayapó se autodenomina, simbolizando o foco da ação na defesa de seus territórios tradicionais.