Entre acusações ambientais e a força da produção, uma questão precisa ser enfrentada: nossa maneira de enxergar o meio ambiente está contribuindo para os problemas ou para as soluções?
Série de Sensibilização Socioambiental | Texto 1
*Por Fernanda Machado — Doutora em Sustentabilidade e Mestre em Educação Ambiental*
Mato Grosso frequentemente ocupa o banco dos réus quando o assunto é meio ambiente. Desmatamento, queimadas e perda de biodiversidade alimentam manchetes que projetam sobre o estado a imagem de um território marcado pela degradação ambiental.
Os impactos existem, são graves e precisam ser enfrentados. Mas será que representam toda a realidade mato-grossense? É possível compreender um território tão diverso apenas pelos seus problemas?
Mato Grosso também se destaca pela produção agropecuária, pela diversidade de seus ecossistemas, pelas comunidades que vivem e trabalham no território e pelas iniciativas de conservação e uso sustentável dos recursos naturais.
Reconhecer essa diversidade não significa relativizar os danos ambientais. Tampouco a importância econômica da produção compensa a degradação. *Produzir não justifica destruir, mas preservar também não exige, necessariamente, deixar de produzir.*
A questão central é outra: como construir relações capazes de conciliar as necessidades humanas com a conservação e a regeneração dos sistemas que sustentam a vida?
Essa pergunta nos conduz a uma reflexão anterior às próprias práticas ambientais: *como percebemos o meio ambiente?*
## Nosso olhar orienta nossas relações
Cada pessoa constrói sua percepção a partir das experiências, dos conhecimentos, da cultura, das atividades produtivas e dos valores que orientam sua vida.
Para alguns, meio ambiente é natureza preservada. Para outros, é fonte de recursos, espaço de produção, território de pertencimento, expressão cultural ou lugar onde os problemas precisam ser resolvidos.
Essas diferentes interpretações influenciam nossas decisões. Afinal, a maneira como compreendemos o mundo interfere na forma como nos relacionamos com ele.
O filósofo Maurice Merleau-Ponty contribui para essa reflexão ao reconhecer que nossa experiência do mundo não se reduz às representações que construímos sobre ele. Também nossa memória, como observa Berger, é reinterpretada à luz das experiências e dos significados do presente.
Isso significa que nossas percepções não são definitivas. Podem ser ampliadas e transformadas pelo conhecimento, pelo diálogo e pelo reconhecimento de outras realidades.
*Se nossas percepções orientam nossas relações, transformar a maneira de perceber pode ser o primeiro passo para transformar a maneira de agir.*
É com essa proposta que convidamos você a participar de um exercício de sensibilização ambiental.
## Exercício: o que é meio ambiente para você?
Observe as 12 imagens que acompanham este artigo, reunindo obras de artistas mato-grossenses e outras referências visuais.
*Escolha uma ou mais imagens que melhor representam o meio ambiente para você.*
Antes de continuar a leitura, reflita:
– Qual imagem você escolheu e por quê?
– O que ela revela sobre sua relação com o meio ambiente?
– Você se reconhece como parte desse ambiente?
Não procure uma resposta considerada correta. O exercício não pretende julgar sua escolha, mas revelar diferentes maneiras de compreender o ambiente.
Agora, conheça as representações associadas a cada imagem. Elas dialogam com os estudos de Lucie Sauvé sobre as concepções de meio ambiente na Educação Ambiental, aqui ampliadas e adaptadas à nossa realidade.
## Doze imagens, diferentes percepções
*Figura 1 — Natureza | Jonas Barros, Piraputanga*
Representa a percepção naturalista, que compreende o meio ambiente como natureza, espaço de contemplação, apreciação e preservação.
*Figura 2 — Conhecimento científico | Rondinelli, Espectro Solar*
Expressa a percepção científica, que busca compreender os fenômenos ambientais por meio da observação, da investigação e da comprovação de conhecimentos.
*Figura 3 — Sistema | Secretaria de Turismo de Mato Grosso*
Apresenta a percepção sistêmica, na qual o ambiente é compreendido como um conjunto complexo e interdependente. Seus elementos se relacionam, e alterações em uma parte podem afetar o todo.
*Figura 4 — Cosmos | Vitória Basaia*
Representa a percepção cósmica, que amplia a compreensão do ambiente para além da Terra, considerando sua inserção no universo.
*Figura 5 — Recurso | Representação da produção agrícola*
Expressa a percepção utilitária, na qual a natureza é fonte de recursos para a sobrevivência e as atividades humanas, como a agricultura, a pecuária e a extração mineral. Essa visão também exige refletir sobre os limites do uso e a responsabilidade pela conservação.
*Figura 6 — Problema | J. Antônio Silva, Queimada*
Representa a percepção do ambiente como problema a ser enfrentado, envolvendo situações como queimadas, poluição, desmatamento e degradação dos ecossistemas.
*Figura 7 — Desenvolvimento | Almira Router, Ponte sobre o Rio Cuiabá*
Expressa a percepção desenvolvimentista, associada às transformações do espaço, à infraestrutura, ao crescimento econômico e às intervenções humanas no território.
*Figura 8 — Biorregião | Gervana de Paula, Mimoso*
Representa a percepção biorregional, que valoriza as características ecológicas, culturais e históricas de cada região e as relações de pertencimento de suas comunidades.
*Figura 9 — Cultura | Ivete Perón, São Gonçalo*
Expressa a percepção etnográfica, que reconhece o ambiente por meio das tradições, dos símbolos, dos conhecimentos e das manifestações culturais dos diferentes grupos humanos.
*Figura 10 — Participação | Gervane de Paula, Ano Internacional da Criança*
Representa a percepção participativa, na qual o ambiente é compreendido pelas relações humanas, pela cooperação e pela responsabilidade coletiva na construção da vida em sociedade.
*Figura 11 — Espiritualidade | Vitória Basaia, Senhora do Rio Cuiabá*
Expressa a percepção espiritualizada, que reconhece na natureza dimensões sagradas, religiosas e transcendentes, atribuindo valores espirituais às relações com o ambiente.
*Figura 12 — Ecofeminismo | Bea, Mulher e Paixão*
Representa a percepção ecofeminista, que questiona as relações de dominação e exploração da natureza e das pessoas, valorizando a justiça, a equidade e o princípio do cuidado.
## Não existe uma única maneira de enxergar o meio ambiente
Talvez você tenha escolhido a imagem da natureza preservada. Talvez tenha se identificado com a produção agrícola, com a cultura, com a espiritualidade ou com os problemas ambientais.
Nenhuma dessas escolhas, isoladamente, representa toda a complexidade do ambiente.
Cada percepção revela uma dimensão da realidade. Entretanto, quando uma delas passa a orientar exclusivamente nosso olhar, corremos o risco de ignorar relações fundamentais.
Se enxergamos a natureza apenas como recurso, podemos desconsiderar seus limites ecológicos. Se a percebemos somente como um espaço intocado, podemos deixar de reconhecer o ser humano e suas necessidades como parte dela. Se a reduzimos aos problemas ambientais, podemos não perceber as possibilidades de transformação.
*Não há uma única percepção correta, mas isso não significa que todas as práticas sejam adequadas.* As percepções precisam ser respeitadas e discutidas; as ações, avaliadas por suas consequências sociais, ambientais e econômicas.
O exercício não busca definir quem está certo ou errado. Busca ampliar nosso olhar, reconhecer a diversidade e compreender que fazemos parte de uma realidade que não se explica por uma única imagem.
## Produção e conservação: uma relação de dependência, não de oposição
Voltemos à questão que abriu este artigo.
O debate ambiental em Mato Grosso frequentemente coloca produção e conservação em lados opostos. Entretanto, a própria continuidade da produção depende da qualidade do solo, da disponibilidade de água, da biodiversidade e do funcionamento dos ecossistemas.
Da mesma forma, a sustentabilidade precisa considerar as necessidades das pessoas, o trabalho, a geração de renda, a segurança alimentar e as particularidades culturais e territoriais.
Isso não significa que qualquer atividade produtiva seja sustentável. Significa que *a sustentabilidade deve ser construída e demonstrada pelas práticas, pelos resultados e pela responsabilidade com os limites da natureza.*
Precisamos reconhecer os impactos e enfrentá-los, mas também identificar experiências que mostram ser possível produzir com conservação, recuperar áreas degradadas, utilizar os recursos de maneira responsável e melhorar continuamente os processos produtivos.
Mais do que reduzir danos, precisamos regenerar.
E regenerar não se limita à recuperação do solo, da vegetação ou dos recursos hídricos. Envolve também reconstruir relações entre pessoas, comunidades, atividades econômicas e natureza.
É reconhecer que os sistemas naturais possuem seus ciclos, que os territórios abrigam diferentes formas de vida e que a diversidade, biológica e cultural, é essencial à sustentabilidade.
*Não podemos viver sem a natureza. E não podemos construir uma sociedade sustentável sem considerar as necessidades humanas.*
Por isso, o desafio não está em escolher um lado, mas em transformar a qualidade dessas relações.
## E você, onde está nesse processo?
Retome a imagem escolhida no início do exercício.
Depois de conhecer as diferentes representações, você manteria sua escolha? Ou passou a reconhecer outras dimensões do meio ambiente?
Essa reflexão importa porque nossas percepções não permanecem apenas no campo das ideias. Elas influenciam a maneira como produzimos, consumimos, conservamos, participamos das decisões e convivemos com a diversidade.
A sensibilização ambiental começa quando nos reconhecemos como parte do problema, mas também como sujeitos capazes de construir soluções, considerando as diferentes responsabilidades de cada um.
Não se trata de negar conflitos ou diferenças. Trata-se de reconhecer que a sustentabilidade exige diálogo, conhecimento, compromisso e mudanças concretas.
Precisamos resgatar o sentido do cuidado e regenerar nossas relações com o eu, com o outro e com o meio ambiente.
*Produzir de forma sustentável é cuidar. E cuidar não é o oposto de produzir: é o que permite que as relações e produções durem. Machado, 2026.*
Antes de perguntar apenas quem está destruindo ou quem está preservando, precisamos refletir sobre nossas próprias relações com o ambiente.
Porque a questão não é somente como enxergamos a natureza, mas o que fazemos a partir desse olhar.
*E você, onde está nesse processo?*
Por Fernanda de Arruda Machado, doutora em Sustentabilidade. As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade da autora e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial do Centroeste News.
*Nota: As imagens originais desta proposta educativa foram um presente da Prof.ª Dr.ª Michèle Sato.