A luta contra o HIV acaba de ganhar dois novos capítulos que trazem esperança, mas também ressaltam os limites da ciência. Médicos anunciaram nesta segunda-feira (27), durante a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, no Rio de Janeiro, mais dois casos de possível cura do HIV.
Ambos os pacientes interromperam o uso dos antirretrovirais e, até agora, o vírus não voltou a ser detectado em seus organismos. Com os novos registros, sobe de 11 para 13 o número de casos de cura ou remissão contabilizados pela Sociedade Internacional de Aids (IAS).
O primeiro caso, conhecido como paciente de Kansas City, nos Estados Unidos, é de um homem de 21 anos diagnosticado com HIV e uma forma agressiva de leucemia em 2018. Antes de iniciar o tratamento, ele tinha mais de 2 milhões de cópias do vírus por mililitro de sangue e uma quantidade muito baixa de células de defesa.
Em outubro de 2020, recebeu células-tronco de uma doadora totalmente compatível, que carregava duas cópias de uma mutação rara chamada CCR5-delta32 — uma alteração genética que impede que as formas mais comuns do HIV usem uma das principais portas de entrada das células.
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Após complicações e um reforço de células-tronco, os antirretrovirais foram suspensos em fevereiro de 2025. Hoje, 14 meses depois, os exames continuam sem encontrar vestígios do vírus no sangue.
O segundo paciente também recebeu células de um doador com a mesma mutação, mas o caso era considerado mais complexo porque ele tinha diferentes formas do HIV, capazes de usar mais de uma porta de entrada nas células.
Os medicamentos foram suspensos pouco mais de quatro anos após o transplante, e há 12 meses o HIV segue indetectável. A interrupção dos remédios, no entanto, fez com que a hepatite B — que ele também tinha — voltasse a se multiplicar em apenas 25 dias, já que parte dos antirretrovirais também controlava esse outro vírus.
Os dois casos ainda são tratados como possíveis curas porque o tempo sem medicamentos é relativamente curto. O termo mais adequado, segundo infectologistas, é “remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais”: significa que o tratamento foi retirado e o vírus não voltou.
Para alguns pacientes, há evidências fortes de que o vírus realmente não existe mais. Mas não existe um único exame capaz de verificar todas as partes do corpo e garantir que nenhuma célula infectada permaneceu escondida em algum tecido. Por isso, mesmo nos casos mais antigos, os pacientes continuam sendo acompanhados de perto.
É importante entender, porém, que esses transplantes não representam uma cura acessível para a maioria das pessoas que vivem com HIV. Os procedimentos são de alto risco — podem causar infecções graves, rejeição das células, danos a órgãos e até a morte — e só são indicados para quem precisa tratar doenças graves do sangue, como leucemias e linfomas. Para quem vive com HIV e responde bem aos antirretrovirais, os riscos de um transplante seriam muito maiores do que qualquer benefício.
Os cientistas agora trabalham para reproduzir os efeitos positivos desses transplantes de forma mais segura. Estão em estudo anticorpos, medicamentos que reforçam o sistema de defesa e terapias genéticas capazes de tornar as células resistentes ao HIV.
A expectativa é que, um dia, uma cura simples, de baixo risco e disponível em larga escala chegue à população. Até lá, os antirretrovirais continuam sendo a forma comprovada de manter o HIV indetectável e impedir a transmissão do vírus.