“Incêndios criminosos do agro espalham-se. Vegetação dá lugar a pastos. Há risco do bioma desaparecer em 50 anos.”
Esse é o título da reportagem publicada pelo jornal Outras Palavras. Um título forte. Impactante. Mas que levanta uma pergunta indispensável: onde estão as evidências que permitam atribuir ao “agro”, de forma ampla, a responsabilidade pelos incêndios criminosos no Pantanal?
No Estado Democrático de Direito, ninguém pode ser condenado sem provas. O mesmo princípio deveria orientar o debate público.
Ao utilizar a expressão “incêndios criminosos do agro”, o título associa um setor inteiro da economia brasileira a uma prática criminosa. Trata-se de uma afirmação extremamente abrangente, que exige demonstração objetiva. Sem essa demonstração, o risco é transformar uma hipótese ou uma interpretação em uma acusação coletiva.
O agronegócio brasileiro representa uma parcela significativa do Produto Interno Bruto, das exportações e da segurança alimentar do país. É responsável por alimentar milhões de brasileiros e consumidores em diversos continentes.
Mais do que isso, a agricultura e a pecuária brasileiras passaram, nas últimas décadas, por uma profunda transformação tecnológica.
Produz-se muito mais do que se produzia há quarenta anos.
E isso ocorre utilizando proporcionalmente menos expansão territorial do que no passado, graças ao melhoramento genético, à agricultura de precisão, ao plantio direto, à integração lavoura-pecuária-floresta, ao uso de biotecnologia e a inúmeras inovações desenvolvidas pela pesquisa agropecuária brasileira.
Generalizar esse universo heterogêneo como responsável pelos incêndios criminosos significa ignorar uma realidade reconhecida internacionalmente.
Existe outro aspecto raramente lembrado.
Ninguém deseja ver sua própria propriedade destruída pelo fogo.
O produtor rural perde cercas, pastagens, rebanhos, infraestrutura, máquinas, solo, biodiversidade e capacidade produtiva.
Os prejuízos econômicos podem levar anos para serem recuperados.
Por isso, afirmar que o fogo criminoso seria um interesse do próprio produtor exige muito mais do que uma manchete de impacto.
Exige investigação.
Exige individualização das responsabilidades.
Exige provas.
O próprio Pantanal demonstra essa complexidade.
Há incêndios associados a ações criminosas.
Há incêndios decorrentes de acidentes.
Há eventos relacionados a secas extremas.
Há ignições provocadas por raios.
Há falhas de manejo.
Há ações de terceiros.
Reduzir esse conjunto de fatores à expressão “incêndios criminosos do agro” simplifica um fenômeno cuja própria ciência classifica como multifatorial.
Outro ponto merece reflexão.
Grande parte da vegetação nativa preservada no Brasil encontra-se em imóveis rurais privados, protegida tanto por exigências do Código Florestal quanto pela manutenção de reservas legais e áreas de preservação permanente. Isso não significa que todos os proprietários cumpram a legislação, mas demonstra que a conservação também ocorre fora das Unidades de Conservação e depende, em grande medida, da gestão realizada pelos proprietários rurais.
Enquanto isso, as áreas urbanas concentram grande parte dos problemas relacionados à poluição, impermeabilização do solo, descarte inadequado de resíduos, emissão de gases de efeito estufa e degradação dos recursos hídricos.
A sustentabilidade precisa ser analisada de forma integrada.
Não existe um único vilão.
Nem um único herói.
O Pantanal será protegido quando ciência, produtores, comunidades tradicionais, pesquisadores e poder público trabalharem juntos.
Mas isso dificilmente acontecerá enquanto manchetes transformarem um dos setores mais importantes da economia brasileira em culpado coletivo, antes mesmo da demonstração individual das responsabilidades.
A crítica ambiental é necessária.
A responsabilização de quem pratica crimes ambientais também.
Entretanto, ambas perdem legitimidade quando substituem a investigação pela generalização.
A defesa do Pantanal exige coragem para denunciar crimes, independentemente de quem os pratique.
Mas exige, acima de tudo, compromisso com a verdade, com a precisão dos dados e com o respeito aos princípios fundamentais da responsabilidade individual.
Porque a proteção da natureza não se fortalece com acusações genéricas.
Fortalece-se com ciência, justiça e honestidade intelectual.
Por Fernanda de Arruda Machado, doutora em Sustentabilidade. As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade da autora e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial do Centroeste News.