Um levantamento realizado pela Mongabay mostra que o acesso à água tratada no Recife é marcado por diferenças relacionadas à renda, raça e localização dos moradores. A análise cruzou os calendários de abastecimento da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) com dados do Censo 2022 do IBGE.
Das 311 localidades analisadas em julho de 2026, 236 apresentavam intermitência crônica no fornecimento. Segundo o levantamento, os períodos mais longos de falta d’água estão concentrados principalmente em áreas periféricas com maior presença de mulheres negras e renda média entre R$ 1,1 mil e R$ 2,3 mil.
No Ibura, por exemplo, o abastecimento chega a apenas 91 horas por mês, o equivalente a cerca de 17% das 540 horas mensais usadas como referência a partir dos critérios da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Moradores relatam que, em alguns períodos, podem passar até 15 dias consecutivos sem água.
O contraste aparece quando os dados são comparados com bairros de maior renda. Em Boa Viagem, Apipucos e Espinheiro, o abastecimento ultrapassa 700 horas mensais. A diferença também pode ser observada entre localidades próximas: enquanto Apipucos tem fornecimento quase contínuo, o vizinho Alto Santa Terezinha registra cerca de 100 horas mensais.
Especialistas ouvidos pela Mongabay utilizam o termo racismo hídrico para descrever situações em que fatores como raça, renda e território se relacionam às desigualdades no acesso à água.
O problema ainda se mistura com os riscos climáticos. Áreas como Ibura e Linha do Tiro, que enfrentam abastecimento irregular, também estão entre as regiões sujeitas a riscos elevados de enchentes e deslizamentos. Assim, parte dos moradores convive simultaneamente com períodos de falta de água e com o risco de excesso durante as chuvas.
Para enfrentar a escassez, famílias recorrem ao armazenamento em recipientes, à compra de água e a outras alternativas para garantir o abastecimento durante os períodos de interrupção.
Pernambuco também enfrenta uma limitação estrutural de disponibilidade hídrica. Segundo dados citados pela reportagem, o estado possui uma das menores disponibilidades de água por habitante do país, o que aumenta os desafios para garantir o abastecimento regular da população.
A situação ocorre enquanto o Marco Legal do Saneamento estabelece a meta de que 99% da população brasileira tenha acesso à água potável até 2033. No Recife, os dados levantados mostram que, além da expansão da rede, a regularidade do fornecimento continua sendo um dos principais desafios para a universalização do serviço.