A passagem de Javier Milei pelo Brasil no último sábado deixou marcas que prometem demorar para cicatrizar. Segundo a imprensa argentina, o episódio já é tratado como a maior crise diplomática entre Argentina e Brasil nos últimos cinquenta anos — e o governo de Milei já deixou claro que não haverá pedido de desculpas, nem do embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, e muito menos do presidente.
Em um discurso de quase meia hora durante a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, Milei chamou o ministro do STF Alexandre de Moraes de “lixo careca” e disparou críticas ao presidente Lula e às suas políticas sociais. A reação do governo brasileiro foi imediata: o Itamaraty convocou o embaixador argentino para transmitir a repulsa oficial e também chamou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos.
O jornal La Nación publicou um artigo de opinião do jornalista Claudio Jacquelin afirmando que dezenas de diplomatas, ex-funcionários e especialistas em relações internacionais dos dois países são unânimes em classificar o ocorrido como a maior crise diplomática do último meio século. O texto ressalta que, apesar da gravidade, fontes do Itamaraty descartaram medidas mais extremas, mas o governo argentino já sinalizou que não recuará.
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O Clarín, por sua vez, classificou o episódio como inédito na história democrática dos dois países. Disse que insultos dirigidos a um chefe de Estado em seu próprio país, como os que Milei proferiu contra Lula, não têm precedentes. Nem mesmo durante os períodos de rivalidade entre os governos militares houve algo remotamente parecido, segundo fontes da diplomacia brasileira ouvidas pelo jornal.
Dois dias após o episódio, Milei seguiu alimentando a crise. Compartilhou em sua conta no X uma série de publicações com críticas a Lula, chamando-o de ex-presidiário e dizendo estar enojado com todos os idiotas e hipócritas que vieram se desculpar com o presidente brasileiro. Enquanto isso, o argentino deu sequência à sua turnê pela América Latina, com compromissos no Peru, Equador e Colômbia, deixando para trás uma relação bilateral estremecida como há décadas não se via.