Uma nova pesquisa Datafolha revela que esmagadores 71% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala de trabalho 6×1, que prevê seis dias de trabalho para um de descanso, e defendem a transição para uma jornada de cinco dias trabalhados e dois de folga, sem perda salarial. Esse apoio crescente reflete um desejo por maior equilíbrio na vida dos trabalhadores.
A vontade por mais equilíbrio na vida parece estar se consolidando entre os brasileiros. Uma recente pesquisa Datafolha, divulgada neste último sábado, 14, mostra que a vasta maioria da população não apenas apoia, mas deseja ardentemente o fim da tradicional escala de trabalho 6×1. O modelo, que exige seis dias de atividade para conceder um único dia de descanso, está em xeque. O levantamento indica que 71% dos entrevistados defendem uma redução no número máximo de dias de trabalho semanais, enquanto apenas 27% se posicionam contra e 3% preferem não opinar.
Este resultado não é um ponto isolado; ele representa uma tendência de crescimento. Comparado a uma sondagem anterior, realizada em dezembro de 2024, o apoio à redução da jornada saltou de 64% para os atuais 71%. Isso significa que, em poucos meses, mais brasileiros se convenceram da importância de ter mais tempo para si, para a família e para o lazer. A pesquisa, que ouviu 2.004 pessoas com mais de 16 anos em 137 municípios entre os dias 3 e 5 de março, com margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, capta um sentimento nacional em ascensão.
O debate sobre o fim da escala 6×1, que defende uma jornada de 40 horas semanais distribuídas em cinco dias de trabalho com dois de descanso (a chamada escala 5×2), tem ganhado força nos corredores do Congresso. E não é por acaso: o tema é uma prioridade para o governo do presidente Lula, especialmente em um ano eleitoral. Em seu pronunciamento pelo Dia das Mulheres, o presidente destacou como a redução da jornada poderia beneficiar, em particular, as mulheres trabalhadoras, que frequentemente se desdobram entre suas carreiras e as responsabilidades domésticas.
Curiosamente, a pesquisa reforça essa perspectiva de gênero: 77% das mulheres entrevistadas manifestaram apoio à mudança, um percentual significativamente maior que os 64% dos homens que pensam da mesma forma. O clamor por uma vida mais digna para quem trabalha, especialmente as mulheres, ressoa nas declarações públicas de figuras políticas importantes, como Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, e Gleisi Hoffmann, das Relações Institucionais, que endossam a medida. A Câmara dos Deputados já deu o primeiro passo formal, realizando uma audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para discutir as propostas, sinalizando que o tema está, de fato, em movimento.
Ao analisar o perfil dos entrevistados, a pesquisa revela nuances interessantes. Aqueles que já trabalham até cinco dias por semana (um grupo que representa 53% dos entrevistados) são ainda mais favoráveis à redução, com 76% de apoio. Já entre os que trabalham seis ou sete dias (47% do total), o apoio cai para 68%. Essa diferença pode ser explicada pelo fato de que o grupo com jornadas mais longas concentra uma maior proporção de autônomos e empresários, para quem mais horas de trabalho muitas vezes significam maior renda. Por outro lado, o grupo que trabalha menos dias inclui mais funcionários públicos, para quem a duração da jornada nem sempre influencia o salário. Em termos de horas diárias, a maioria (66%) trabalha até 8 horas, 28% entre 8 e 12 horas, e 5% dedicam mais de 12 horas por dia ao trabalho.
No que tange aos impactos econômicos, os brasileiros se dividem. Quando questionados sobre as empresas, 39% acreditam que o fim da escala 6×1 trará efeitos positivos, enquanto uma parcela idêntica prevê consequências negativas – uma mudança em relação a dezembro de 2024, quando 42% apontavam para um cenário desfavorável para os negócios. Já em uma visão mais ampla sobre a economia, 50% veem a mudança com otimismo, esperando um efeito “ótimo ou bom”, contra 24% que preveem um impacto “ruim ou péssimo”. No entanto, o consenso é quase unânime quando o assunto é a qualidade de vida dos trabalhadores: 76% acreditam que a redução da jornada será “ótima ou boa” para o bem-estar, um índice que sobe para 81% entre aqueles que já desfrutam de uma jornada menor. É um claro indicativo de que, para o brasileiro, ter mais tempo para viver é, sim, prioridade.