Um terço dos eleitores brasileiros não se sente representado nem pelo lulismo nem pelo bolsonarismo. O número, que se repete há meses nas pesquisas da Quaest, sugere que há um contingente expressivo de gente em busca de uma alternativa. O problema é que, até agora, essa alternativa não aparece — e a história das eleições brasileiras mostra que romper a polarização é uma tarefa que poucos conseguiram realizar.
O levantamento mais recente da Quaest, divulgado na última quarta-feira, revela que 32% dos eleitores se consideram independentes. Mas, quando perguntados em quem votariam hoje, a maioria esmagadora continua dividida entre os dois polos: Lula aparece com 39% das intenções de voto, e Flávio Bolsonaro, com 33%. Somados, os dois concentram 72% do eleitorado. O restante se fragmenta entre nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, ambos com 4%, e Renan Santos, com 2%. O espaço para uma candidatura de ruptura, na prática, ainda é mínimo.
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O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, resume o fenômeno com uma palavra que se tornou central no debate político recente: calcificação. A divisão do eleitorado entre dois campos antagônicos se consolidou a ponto de parecer estrutural, e não conjuntural. A terceira via, diz ele, existe como demanda — algo entre 20% e 30% dos eleitores consistentemente desejam uma opção fora da polarização —, mas falta coordenação política para transformar esse desejo em candidatura viável. Os partidos lançam vários nomes ao mesmo tempo e confundem o eleitor sobre quem realmente representa essa alternativa.
Não é de hoje que esse padrão se repete. Um levantamento do g1 com dados do Tribunal Superior Eleitoral mostra que, desde a redemocratização, raros foram os candidatos que conseguiram furar o bloqueio da polarização. Em 2014, Marina Silva chegou perto, com 21,3% dos votos, após assumir a candidatura no lugar de Eduardo Campos, mas ficou pelo caminho. Em 2018 e 2022, Ciro Gomes e Simone Tebet amargaram desempenhos distantes dos dois primeiros colocados. Em todas essas disputas, o segundo turno foi decidido entre PT e PSDB — ou, mais recentemente, entre PT e bolsonarismo.
O cenário de 2026 repete o roteiro com novos personagens. Caiado e Zema disputam o mesmo espaço de candidatura anti-Lula, mas com estratégias distintas. O governador de Goiás aposta num discurso que o cientista político Murilo Mendes, da UnB, classifica como antissistema moderado: confronta o establishment, mas ostenta currículo administrativo para dialogar tanto com antipetistas quanto com independentes. Já Zema veste a roupa do outsider radical, que desafia o sistema com mais agressividade. Ambos, no entanto, acabam competindo entre si pelo mesmo eleitorado, em vez de se consolidarem como opção autônoma.
A ex-ministra Marina Silva, que viveu na pele a dificuldade de ocupar esse espaço, é direta ao avaliar as candidaturas atuais. Para ela, nem Caiado nem Zema apresentam mudança substantiva em relação ao bolsonarismo. Todos, em essência, reproduzem o mesmo padrão de reacionarismo econômico, social e ambiental. A ex-ministra, que se reaproximou de Lula em 2022 e hoje disputa uma vaga no Senado por São Paulo como aliada do PT, diz que o termo terceira via simplifica demais o debate. Suas próprias candidaturas, afirma, buscavam apresentar uma nova forma de pensar o desenvolvimento do país, mas a polarização, que assumiu contornos mais destrutivos a partir de 2018, interrompeu esse avanço.
O historiador Herbet dos Anjos é ainda mais direto: o termo terceira via é fluido e dependente de contexto. Não há uma definição política ou ideológica para além da promessa de enfrentar a polarização. O que se vê, na prática, é um espaço órfão, como define João Amoêdo, fundador do partido Novo. Para ele, não há interesse real dos partidos em se posicionar como diferente do bolsonarismo ou do lulismo, porque o objetivo é outro: aumentar bancadas federais e, com elas, garantir mais recursos do Fundo Partidário, do Fundo Eleitoral e das emendas parlamentares. Uma distorção do sistema democrático, nas palavras do empresário, que deixou o Novo após apoiar Lula em 2022 e hoje observa de fora o encolhimento do centro.
A apatia do eleitor independente agrava o quadro. Felipe Nunes observa que, em pesquisas qualitativas, o que se percebe não é exatamente uma busca ativa por uma alternativa de centro, mas uma descrença generalizada no sistema político. Esse eleitor quer alguém fora da polarização, mas também fora da política tradicional. Um outsider. O exemplo mais recente, lembra o cientista político, foi o crescimento de Pablo Marçal nas eleições municipais de 2024 em São Paulo, ocupando exatamente esse espaço de rejeição ao establishment.
O cientista político Fernando Schuler, professor do Insper, resume o obstáculo histórico: nos últimos 30 anos, as eleições brasileiras seguiram o padrão de dois nomes fortes, um de cada lado, com visões opostas de programa de governo e valores. Isso dificulta, por definição, o surgimento de alternativas. E o contexto pós-2018, com a ascensão do bolsonarismo e o consequente agrupamento de forças em torno de Lula, estreitou ainda mais as opções. Como observa Herbet dos Anjos, nenhum partido com relevância social parece disposto a correr o risco de se desgastar diante do voto útil.
A terceira via, em 2026, não desapareceu como demanda. Mas, como candidatura viável, continua tão distante quanto nas eleições anteriores.