O governo do presidente Javier Milei enfrenta críticas e questionamentos após adotar uma série de medidas que alteram profundamente a política de assistência às pessoas com deficiência na Argentina. As mudanças incluem o congelamento de repasses financeiros para entidades especializadas, a reformulação da estrutura administrativa do setor e a revisão dos critérios de acesso aos benefícios sociais.
A decisão faz parte do amplo programa de ajuste fiscal promovido pela administração Milei, que tem como objetivo reduzir gastos públicos, combater supostas irregularidades e alcançar equilíbrio nas contas do governo. Segundo o Executivo argentino, o sistema atual apresenta falhas, burocracia excessiva e casos de fraude que precisam ser corrigidos.
No último dia 18, o governo formalizou a suspensão dos repasses destinados a organizações que oferecem serviços terapêuticos, educacionais e de reabilitação para pessoas com deficiência. A medida provocou forte reação de entidades do setor, familiares e organizações de direitos humanos, que alertam para o risco de interrupção de atendimentos essenciais.
A situação rapidamente chegou à Justiça. Em decisão liminar, magistrados determinaram que o governo restabelecesse os pagamentos em até 72 horas. No entanto, a administração federal recorreu da decisão, mantendo o impasse jurídico.
Reforma estrutural e mudanças nos serviços
Além do congelamento dos recursos, o governo argentino apresentou ao Congresso um projeto de lei que altera a forma de financiamento dos serviços. Pela proposta, prestadores de atendimento passariam a negociar diretamente com seguradoras e administrações locais, reduzindo a participação direta do governo federal nos pagamentos.
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Outra medida controversa foi o encerramento da agência nacional responsável pelas políticas para pessoas com deficiência. As atribuições do órgão foram transferidas para o Ministério da Saúde, enquanto servidores públicos foram desligados durante o processo de reestruturação.
O governo justifica a mudança alegando que encontrou indícios de irregularidades e problemas administrativos na gestão anterior. Autoridades afirmam que houve casos de fraudes envolvendo benefícios sociais, incluindo denúncias de falsificação de exames médicos para obtenção indevida de auxílios financeiros.
Entidades alertam para crise no atendimento
Organizações que atuam na área afirmam que a suspensão dos recursos agravou uma crise que já vinha se desenvolvendo nos últimos anos. Segundo representantes do setor, os valores pagos pelo Estado estavam defasados em relação à inflação e os atrasos nos reembolsos acumulavam dificuldades financeiras para as instituições.
Com a redução das receitas, diversas entidades passaram a cortar despesas, reduzir equipes e limitar atendimentos. De acordo com associações do setor, aproximadamente 50 centros terapêuticos encerraram suas atividades em 2026, especialmente em regiões rurais e cidades menores, onde a oferta de serviços especializados já era limitada.
Especialistas alertam que a continuidade desse cenário pode dificultar o acesso de milhares de pessoas com deficiência a tratamentos, terapias e programas educacionais fundamentais para sua qualidade de vida e inclusão social.
Debate entre ajuste fiscal e proteção social
O caso intensifica o debate sobre os limites das políticas de austeridade fiscal. Enquanto o governo defende a necessidade de controlar gastos, combater fraudes e garantir recursos para o pagamento da dívida pública, críticos argumentam que os cortes podem comprometer direitos fundamentais de uma população considerada vulnerável.
A discussão ocorre em meio ao processo de reformas econômicas promovidas por Milei desde o início de seu mandato, marcado por medidas de contenção de despesas públicas, redução da estrutura estatal e revisão de programas sociais.
O desfecho da disputa judicial e a tramitação das propostas no Congresso argentino deverão definir os próximos passos da política de assistência às pessoas com deficiência no país.