À primeira vista, pode parecer lógico imaginar que o aumento das temperaturas provocado pelo aquecimento global favoreça a geração de energia solar. No entanto, especialistas afirmam que essa associação é equivocada. Embora a energia solar dependa da radiação emitida pelo Sol, o calor excessivo não aumenta a eficiência dos sistemas fotovoltaicos e, em alguns casos, pode até reduzir seu desempenho.
De acordo com o engenheiro ambiental Alessandro Bertolino, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a produção de energia solar está relacionada principalmente à quantidade de luz solar que atinge os painéis, e não à temperatura do ar.
Segundo o especialista, o aumento da temperatura global não significa automaticamente maior geração de eletricidade. Na prática, temperaturas muito elevadas podem provocar perdas de eficiência nos equipamentos fotovoltaicos.
Calor excessivo reduz rendimento
Os painéis solares convertem a luz do Sol em energia elétrica por meio de células fotovoltaicas. Embora funcionem melhor sob intensa incidência luminosa, essas células tendem a perder eficiência quando aquecem além de determinadas faixas de temperatura.
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Isso significa que um dia extremamente quente nem sempre resulta em maior produção de energia. Em muitas situações, painéis instalados em regiões muito quentes geram menos eletricidade do que produziriam sob temperaturas mais amenas, mesmo recebendo a mesma quantidade de radiação solar.
Mudanças climáticas criam novos desafios
Além do impacto direto do calor sobre os equipamentos, especialistas alertam que as mudanças climáticas podem alterar condições atmosféricas importantes para a geração de energia.
O aumento da frequência de eventos extremos, como tempestades, secas severas e queimadas, pode afetar a regularidade da produção elétrica. Mudanças nos padrões de nebulosidade também podem reduzir a incidência solar em determinadas regiões ao longo do ano.
A fumaça proveniente de incêndios florestais, por exemplo, pode diminuir a quantidade de luz que chega aos painéis solares, reduzindo temporariamente a capacidade de geração.
Nordeste ilustra o fenômeno
Segundo Edson Watanabe, pesquisador da Rede do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) e membro da Academia Brasileira de Ciências, o Nordeste brasileiro é um exemplo de como temperaturas mais altas nem sempre significam melhor desempenho dos sistemas fotovoltaicos.
De acordo com o pesquisador, se a região apresentasse temperaturas mais amenas, os mesmos painéis atualmente instalados poderiam gerar ainda mais energia, mantendo a mesma incidência de luz solar.
A observação demonstra que o potencial solar depende de um conjunto de fatores ambientais e tecnológicos, e não apenas da intensidade do calor.
Transição energética continua fundamental
Apesar dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, especialistas ressaltam que a energia solar continua sendo uma das principais alternativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e acelerar a transição para uma matriz energética mais limpa.
O crescimento da geração fotovoltaica no Brasil e no mundo permanece estratégico para o combate às mudanças climáticas. Entretanto, os pesquisadores destacam a necessidade de investir em tecnologias mais eficientes e em estratégias de adaptação que garantam o desempenho dos sistemas diante das transformações do clima global.