Um novo estudo realizado por pesquisadores na Índia encontrou uma alternativa inusitada para reduzir o uso de cimento na produção de concreto: o aproveitamento de resíduos fecais humanos transformados em biochar, um tipo de biocarvão produzido a partir do aquecimento de matéria orgânica.
A pesquisa, liderada pela Universidade Manipal de Jaipur, avaliou a possibilidade de utilizar o material processado como substituto parcial do cimento. Os resultados foram publicados em 5 de setembro na revista científica Scientific Reports.
A proposta chama atenção porque a fabricação do cimento está entre as atividades industriais que mais contribuem para as emissões globais de dióxido de carbono. Ao mesmo tempo, o aproveitamento do lodo fecal poderia oferecer uma alternativa para o tratamento e a destinação de grandes volumes de resíduos produzidos diariamente.
Para realizar os testes, os pesquisadores utilizaram lodo fecal proveniente de uma estação de tratamento na Índia. O material foi inicialmente seco e depois aquecido a temperaturas entre 350 ºC e 450 ºC. Após esse processo, o resíduo foi moído e peneirado até se transformar em um pó fino.
Esse material foi utilizado para substituir parte do cimento em diferentes proporções: 5%, 10% e 15%. As amostras passaram por diversos testes para avaliar características como resistência à compressão, resistência à flexão, absorção de água, porosidade e comportamento durante a cura.
Os resultados mostraram que a proporção de 10% apresentou o melhor desempenho geral entre as formulações testadas. O concreto apresentou aumento de aproximadamente 21% na resistência à compressão e de 42% na resistência à flexão em comparação com o material convencional.
Na mistura com 5% de substituição, os pesquisadores também observaram ganhos importantes: cerca de 20% na resistência à compressão e 36% na resistência à flexão.
Já a formulação com 15% apresentou maior resistência durante o processo de cura, mas seu desempenho geral ficou abaixo das misturas com 5% e 10%.
Apesar dos resultados promissores, a tecnologia ainda está em fase de pesquisa e não significa que resíduos fecais possam ser adicionados diretamente ao concreto. O material precisa passar por tratamento e processamento adequados antes de ser utilizado.
Os pesquisadores avaliam que, caso a tecnologia seja aperfeiçoada e aplicada em escala, ela poderá unir duas vantagens ambientais: reduzir parcialmente a necessidade de cimento e transformar um resíduo sanitário em matéria-prima para a construção civil.