O Brasil deu um passo decisivo rumo à autonomia na cadeia produtiva de minerais estratégicos ao receber o primeiro lote nacional de carbonato de terras raras no Centro de Inovação e Tecnologia para Ímãs de Terras Raras (CIT Senai ITR), em Lagoa Santa (MG). O material, entregue pela mineradora australiana Meteoric, marca o início prático de uma etapa fundamental: a separação química dos elementos que dão origem aos óxidos usados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho.
O lote de 20 quilos de carbonato (concentrado extraído de argilas iônicas) permitirá que o Brasil avance na fase mais valiosa da cadeia produtiva: o beneficiamento e a separação dos Elementos de Terras Raras (ETRs). Esse conjunto de 17 elementos químicos é indispensável para tecnologias estratégicas como motores de carros elétricos, turbinas eólicas, smartphones, equipamentos médicos e sistemas de defesa.
Atualmente, a China domina cerca de 70% da produção e do refino global desses minerais, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Essa concentração gera forte dependência internacional (inclusive do Brasil) em um setor considerado vital para a transição energética e para a soberania tecnológica.
Cadeia produtiva e tecnologia nacional
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O CIT Senai ITR integra o projeto MagBras (Demonstrador Industrial do Ciclo Completo de Produção Brasileira de Ímãs Permanentes de Terras Raras), uma aliança que reúne o SENAI, a EMBRAPII, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e 38 empresas do setor mineral e tecnológico.
O foco principal está no neodímio e no praseodímio, elementos essenciais para a produção de ligas metálicas utilizadas em ímãs permanentes de alta performance, considerados o segmento mais lucrativo da cadeia.
Desde 2018, iniciativas apoiadas pelo CNPq e pelo próprio Ministério vêm financiando estudos sobre terras raras no país. Agora, com investimento de R$ 73,3 milhões do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), a estratégia ganha escala industrial.
Além do carbonato recém-entregue, o centro já trabalha com óxidos puros fornecidos pela empresa Viridion, de Poços de Caldas (MG), além de insumos importados da China, utilizados como base de comparação tecnológica e validação de processos.
Desafio técnico e ambiental
A separação dos ETRs é realizada por meio de hidrometalurgia, um processo químico complexo que exige alto nível de especialização. Nessa etapa, o oxalato desempenha papel fundamental, permitindo separar e purificar cada elemento específico antes da calcinação (superaquecimento controlado da matéria-prima).
Especialistas alertam que o processamento pode gerar resíduos tóxicos e radioativos, exigindo rígidos protocolos ambientais e tecnológicos. O domínio desse processo representa não apenas avanço industrial, mas também desafio ambiental e regulatório.
Soberania estratégica e transição energética
A criação de uma cadeia produtiva completa no Brasil pode reduzir a dependência externa, fortalecer a indústria nacional e inserir o país de forma mais competitiva no mercado global de tecnologias limpas e equipamentos de alto valor agregado.
Em um cenário internacional marcado por disputas comerciais e tensões geopolíticas envolvendo minerais críticos, o avanço brasileiro representa mais do que um passo industrial: trata-se de uma estratégia de soberania econômica e tecnológica.