Um vírus altamente letal está associado a uma queda estimada de 83% na reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma área protegida da Mata Atlântica, em Santa Catarina.
O resultado faz parte de um estudo publicado na revista Biodiversity and Conservation e representa, segundo os pesquisadores, a primeira evidência robusta na América do Sul de que a ranavirose pode provocar o colapso de uma população silvestre de anfíbios.
Os surtos foram registrados entre janeiro de 2024 e março de 2026 na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim (SC). Durante o período, pesquisadores encontraram 324 girinos mortos.
Entre 315 pererecas-macaco analisadas, 88,6% testaram positivo para ranavírus. Exames dos tecidos também identificaram lesões graves associadas à infecção.
Queda na reprodução
O impacto sobre a população ficou mais evidente posteriormente. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, a quantidade de massas de ovos observada na lagoa ficou muito abaixo dos registros históricos realizados entre 1999 e 2004.
Com base nesses dados, os pesquisadores estimaram uma redução de 83% na população reprodutiva da espécie.
Outro fator que chama atenção é a relação entre os surtos e períodos de baixa umidade. A redução da disponibilidade de água pode afetar o sistema imunológico dos anfíbios e concentrar os animais em ambientes menores, favorecendo a transmissão do vírus.
O ranavírus também já foi identificado em rãs-touro, espécie exótica no Brasil, e possui capacidade de infectar outros grupos de animais, incluindo répteis e peixes.
Alerta para a Mata Atlântica
Os pesquisadores pretendem ampliar o monitoramento para outras áreas e verificar se episódios semelhantes estão ocorrendo sem serem identificados.
Durante décadas, o fungo quitrídio esteve entre as principais ameaças conhecidas aos anfíbios. Agora, os pesquisadores alertam que o ranavírus pode representar mais um risco significativo para a biodiversidade da Mata Atlântica.