CentroesteNews
06/01/2026
O governo brasileiro trabalha, de maneira discreta, na atualização de um plano de contingência voltado à recepção de refugiados que possam deixar a Venezuela diante do aprofundamento da crise política e diplomática no país vizinho. A movimentação ocorre em meio às tensões regionais geradas após a ofensiva dos Estados Unidos contra o governo venezuelano, que resultou na prisão de Nicolás Maduro, e ao reposicionamento do Brasil no debate internacional.
Publicamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado um discurso de cautela, defendendo a soberania dos países e buscando se apresentar como articulador político no âmbito do Mercosul. Nos bastidores, no entanto, fontes próximas ao Palácio do Planalto indicam que, há cerca de um mês, equipes técnicas do governo federal discutem cenários de aumento no fluxo migratório venezuelano.
A principal base da estratégia brasileira segue sendo a Operação Acolhida, criada em 2018, responsável por coordenar ações de recepção, abrigamento, regularização documental e interiorização de venezuelanos em diferentes regiões do país. O programa envolve a atuação conjunta de órgãos federais, governos estaduais e municipais, além de agências internacionais, e é apontado como a principal iniciativa prática do atual governo em relação à crise migratória venezuelana.
Após o ataque dos Estados Unidos, aproximadamente 2 mil militares passaram a atuar diretamente na fronteira entre Brasil e Venezuela, em Roraima, enquanto outros 10 mil estão distribuídos pelo estado. A eventual ampliação do plano de contingência prevê reforço da logística, expansão de abrigos temporários e maior integração com políticas públicas de saúde, assistência social e inserção no mercado de trabalho.
Dados do Observatório das Migrações Internacionais mostram que, até outubro do ano passado, o Brasil registrou 1.888.357 entradas migratórias, considerando refugiados, migrantes e solicitantes de refúgio. Dentro desse total, a categoria de acolhida de venezuelanos foi a mais expressiva, com 68.512 registros.
Os venezuelanos também lideram o número de reconhecimentos formais da condição de refugiado. Dos 7.882 pedidos atendidos pelo governo brasileiro até outubro de 2025, 7.228 foram de cidadãos da Venezuela, evidenciando a centralidade do país vizinho na política migratória brasileira.