Nas ruas, o ciclo se repete silenciosamente. A cada seis meses, milhares de fêmeas (cadelas e gatas) dão à luz a ninhadas que nunca pediram para vir ao mundo. São mães invisíveis, exaustas, magras, muitas vezes doentes, tentando proteger os filhos do frio, da fome e da violência. Enquanto alguns ainda romantizam a “maternidade animal”, como se fosse um ato de amor e beleza natural, a realidade é outra: é dor, sofrimento e abandono.
Nenhuma mulher suportaria parir oito, nove, dez filhos em situação de rua, sem comida, sem abrigo, sem dignidade. Por que, então, submetemos as fêmeas animais a essa condição, como se sua dor fosse menor? Como se a natureza, sozinha, fosse responsável pelo sofrimento que nós, humanos, poderíamos evitar?
A natureza é cruel, sim, mas o descaso é humano. Quando não há controle populacional, o resultado é o que se vê diariamente: crias indesejadas, ninhadas deixadas em caixas de papelão, filhotes atropelados, envenenados, doentes, rejeitados. Alguns nascem apenas para sofrer. E cada filhote sem lar representa uma mãe que também sofre (física e emocionalmente) por não conseguir proteger o que gerou.
Não há romantização possível nisso.
A imagem de uma cadela amamentando seus filhotes pode comover, mas por trás há um corpo desgastado, um instinto que obriga, e um olhar que, se pudéssemos traduzir, pediria socorro. A natureza faz gerar, mas não garante sobrevivência. E é aí que o ser humano precisa agir: com responsabilidade, com compaixão e com consciência.
Se não há espaço para um, como haverá para dez?
A pergunta parece dura, mas é real. O destino desses filhotes é quase sempre o mesmo: o abandono. Eles crescem nas ruas, expostos à fome, à sede, às doenças e à crueldade. São chutados, atropelados, envenenados. E, quando não morrem, reproduzem o ciclo novamente, multiplicando o sofrimento.
E se for fêmea? Parir, parir e parir.
Sem anestesia, sem repouso, sem escolha. Apenas repetição.
Muitos justificam dizendo “mas é um animal”. Sim, é mas isso não o torna imune à dor. O instinto não elimina o sofrimento. Se pudéssemos trocar de lugar, nem por um instante desejaríamos suportar o que tantas delas enfrentam ao longo da vida.
A responsabilidade, portanto, é nossa.
A castração é o gesto mais simples e eficaz para mudar essa realidade. Mais do que uma cirurgia, é um ato de empatia. Evita ninhadas indesejadas, reduz o risco de doenças, previne fugas, brigas e, principalmente, interrompe o ciclo do abandono. É pensar no coletivo, e não apenas no indivíduo. É entender que cada animal castrado representa dezenas de vidas poupadas do sofrimento.
E aqui vai um lembrete importante: machos também devem ser castrados.
Eles não geram filhotes, mas são parte essencial do problema. Um único macho pode fecundar diversas fêmeas de rua, multiplicando o número de ninhadas em questão de meses. Castrar é também uma forma de cuidado com eles: diminui o risco de câncer, reduz o comportamento agressivo e melhora a convivência com outros animais.
A ideia de que a castração “tira a masculinidade” ou “é crueldade” é um equívoco. Cruel é permitir que um animal gere dezenas de filhotes destinados à miséria. Cruel é assistir ao sofrimento e permanecer indiferente. A castração é prevenção, é amor que protege antes da dor existir.
Enquanto não entendermos isso, seguiremos vendo as ruas lotadas de histórias interrompidas, mães sem lar, filhotes sem destino.
Não é natural. Não é bonito. É desumano.
Seja consciente.
Antes de adotar, pense. Antes de deixar seu animal reproduzir, reflita.
E antes de romantizar a maternidade dos animais, lembre-se: o que nós fazemos por prazer, eles fazem por instinto. E o instinto, sem amparo humano, se transforma em sofrimento.
Castrar é cuidar. Castrar é amar.
E amor, de verdade, não é o que gera, é o que preserva.