O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal abra um inquérito para investigar suspeitas de interferência estrangeira nas eleições presidenciais de 2026. A decisão, anunciada nesta terça-feira (27), prevê a apuração de possíveis financiamentos políticos vindos do exterior, publicidade eleitoral paga por perfis estrangeiros e eventual manipulação de algoritmos de redes sociais.
A investigação ocorre após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, realizado no domingo (25). As suspeitas foram apresentadas ao Supremo em representações que pedem esclarecimentos sobre a possível atuação de grupos e empresários estrangeiros em favor da campanha do senador. A abertura do inquérito, contudo, não significa que as irregularidades tenham sido comprovadas.
Um dos principais pontos da apuração envolve a Rockbridge Network, organização norte-americana ligada a setores conservadores dos Estados Unidos. A decisão menciona possíveis tratativas entre representantes do grupo e os empresários brasileiros Tallis Gomes e Pedro Sang, que teriam atuado na busca por recursos para a campanha de Flávio Bolsonaro no exterior. A Polícia Federal deverá identificar os envolvidos, verificar a origem de eventuais recursos e esclarecer se houve repasse de dinheiro, serviços ou outras vantagens econômicas.
Outro eixo da investigação diz respeito ao funcionamento das plataformas digitais. Dino determinou que sejam examinados indícios de possíveis alterações intencionais nos algoritmos responsáveis por recomendar e distribuir publicações políticas. A apuração deverá verificar se houve tratamento deliberadamente desigual entre as candidaturas, incluindo eventuais restrições de alcance e impulsionamento de conteúdos durante a campanha eleitoral.
A decisão também menciona publicações eleitorais remuneradas feitas por perfis sediados no exterior. Os investigadores deverão identificar quem contratou os anúncios, de onde vieram os recursos utilizados e se pessoas ou organizações no Brasil participaram conscientemente dessas operações. O objetivo é esclarecer se houve financiamento estrangeiro indireto de atividades eleitorais, prática sujeita às restrições previstas na legislação brasileira.
Além das suspeitas relacionadas ao financiamento e às redes sociais, o ministro determinou que sejam apuradas possíveis negociações envolvendo terras raras e outros minerais estratégicos brasileiros. A investigação deverá esclarecer se houve alguma proposta de apoio político em troca de vantagens econômicas relacionadas à exploração desses recursos.
As terras raras são um conjunto de elementos químicos importantes para a fabricação de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, turbinas eólicas e tecnologias utilizadas na indústria de defesa. Por seu valor econômico e estratégico, o interesse internacional nesses recursos também levanta questões sobre a soberania nacional e o controle de sua exploração. Até o momento, não há comprovação pública de que tenha ocorrido um acordo entre financiamento eleitoral e acesso a reservas minerais brasileiras.
A decisão também prevê o encaminhamento de informações a órgãos federais, incluindo a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o Banco Central e a Receita Federal, para avaliação de possíveis providências dentro de suas competências. O inquérito ficará sob supervisão do STF.
Com a abertura da investigação, a Polícia Federal deverá reunir documentos, identificar os responsáveis pelas possíveis operações e verificar se existem elementos suficientes para confirmar ou descartar as suspeitas. O andamento do caso poderá trazer esclarecimentos sobre a atuação de agentes estrangeiros, o financiamento político e o papel das plataformas digitais na disputa eleitoral brasileira.