O jogo geopolítico dos minerais críticos ganhou um novo capítulo no Brasil. A Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) instaurou um procedimento administrativo para investigar a venda da Serra Verde Pesquisa e Mineração para a empresa americana USA Rare Earth.
O negócio, estimado em US$ 2,8 bilhões — cerca de R$ 14 bilhões — envolve a única operação ativa de extração de terras raras em funcionamento no Brasil, localizada em Goiás.
A investigação ocorre em meio ao aumento da disputa global por minerais estratégicos utilizados em tecnologias avançadas, defesa militar e transição energética.
O que o Cade está investigando
A Superintendência-Geral do Cade avalia se a operação configura um “ato de concentração econômica”, situação em que uma fusão ou aquisição pode afetar a concorrência no mercado.
Caso o órgão conclua que há concentração relevante, a negociação poderá passar por análise aprofundada para verificar possíveis riscos concorrenciais, barreiras econômicas ou impactos estratégicos para o país.
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A transação chama atenção porque criaria uma multinacional com operações ligadas ao Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido.
Contrato exclusivo por 15 anos
Outro ponto que elevou o nível de atenção das autoridades foi um acordo firmado paralelamente à venda. A Serra Verde assinou contrato para fornecer 100% da produção inicial da mina exclusivamente a uma empresa financiada pelo governo americano e investidores privados durante os próximos 15 anos.
O acordo reforça o interesse estratégico dos Estados Unidos em garantir acesso estável aos chamados minerais críticos, considerados essenciais para reduzir a dependência global da China.
O que são terras raras
As terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos fundamentais para diversas tecnologias modernas. Esses minerais são usados na fabricação de:
- baterias de carros elétricos;
- turbinas eólicas;
- celulares e computadores;
- semicondutores;
- equipamentos militares;
- sistemas de defesa e satélites.
Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente escassos, mas são difíceis de separar, refinar e processar economicamente.
Brasil no centro da disputa global
O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da China. No entanto, a produção nacional ainda é considerada pequena em comparação ao domínio chinês sobre o setor.
Hoje, a China concentra grande parte da cadeia global de processamento e refino desses minerais, o que transformou as terras raras em um dos principais temas da disputa econômica e tecnológica entre chineses e americanos.
Os Estados Unidos vêm ampliando investimentos e alianças estratégicas para diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades industriais e militares.
Debate sobre soberania mineral
Especialistas avaliam que o caso levanta discussões importantes sobre soberania mineral, segurança econômica e desenvolvimento tecnológico brasileiro.
Embora o Cade não tenha bloqueado a operação, a investigação busca garantir que a venda não comprometa interesses estratégicos nacionais nem gere dependência excessiva de grupos estrangeiros em um setor considerado vital para o futuro da economia global.
O tema também reacende debates sobre política mineral, agregação de valor industrial e participação do Brasil nas cadeias globais de tecnologia avançada.