A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de barrar as visitas do pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, ao ex-presidente Jair Bolsonaro — que cumpre prisão domiciliar — jogou gasolina na disputa familiar que já vinha se desenhando nos bastidores. A medida, válida por 90 dias, proíbe o contato entre pai e filho até depois do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro, e mexe diretamente com o tabuleiro político da campanha.
O contexto é delicado. Nos últimos dias, uma carta manuscrita de Bolsonaro indicava Flávio como seu único porta-voz, numa mensagem que nas entrelinhas desautorizava Michelle Bolsonaro em meio ao racha exposto publicamente.
Mas a decisão de Moraes inverteu esse jogo: com Flávio impossibilitado de ver o pai, a ex-primeira-dama se torna a principal interlocutora do ex-presidente, com um acesso direto que o enteado não terá ao menos até outubro. Michelle, que deixou a presidência do PL Mulher alegando precisar se dedicar ao marido e à filha, agora recupera um posto estratégico em um momento crucial da sucessão familiar e política.
Entre aliados, a leitura é dúbia. De um lado, parte da cúpula do PL avalia que a proibição fortalece a narrativa de que o STF age contra a direita e a favor da reeleição de Lula, o que poderia beneficiar Flávio ao alimentar o discurso de perseguição e vitimização nas pesquisas. “Isso só vai fazer o Flávio subir ainda mais”, disse o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto.
Por outro lado, a restrição compromete a costura dos palanques estaduais e a articulação da campanha justamente quando faltam menos de três meses para a eleição. Pessoas próximas ao ex-presidente já se queixavam do impacto das cautelares desde as eleições municipais de 2024, e o cenário agora se repete em escala maior.
Em uma live na segunda-feira, Flávio comparou sua situação à de Lula em 2018, quando o então presidente petista, preso em Curitiba, lançou Fernando Haddad como seu substituto. “Lula podia fazer tudo, qual o critério agora com o presidente Bolsonaro?”, questionou. A restrição também atinge Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, e o próprio Valdemar, ambos proibidos de manter contato com o ex-presidente.
A dúvida que paira nos corredores do PL, neste momento, é se Michelle usará sua posição recém-recuperada para fazer a ponte entre os aliados de Flávio e o marido — ou se aproveitará o novo cenário para defender sua própria visão sobre o embate com o enteado.