Pesquisadores brasileiros desenvolveram ferramentas de inteligência artificial (IA) capazes de identificar sinais de depressão por meio da análise da voz, sem considerar o conteúdo das falas. A tecnologia avalia exclusivamente características acústicas, como ritmo, entonação, intensidade e variações sonoras, alcançando índices de acerto de até 91,9% entre mulheres.
O estudo foi publicado na revista científica PLOS Mental Health e utilizou áudios enviados via WhatsApp com respostas simples, como relatos sobre atividades da semana ou a contagem de números. Ao todo, sete modelos de IA foram treinados para reconhecer padrões vocais associados a quadros depressivos.
A pesquisa foi conduzida pelo psiquiatra Ricardo Uchida, professor da Faculdade Santa Casa de São Paulo e autor principal do estudo. Em vez de analisar o que os participantes diziam, os sistemas focaram em como eles falavam.
Alterações emocionais costumam refletir na forma da fala. Em quadros depressivos, por exemplo, é comum que a voz apresente ritmo mais lento, menor variação de entonação e tom mais monótono. A inovação do estudo foi ensinar esses padrões à inteligência artificial, permitindo que o sistema identificasse automaticamente essas alterações.
O treinamento foi realizado com áudios de 160 pessoas, 78 diagnosticadas com depressão e 82 sem o transtorno. Nos testes, a IA demonstrou desempenho de até 91,9% de acerto entre mulheres e cerca de 78,3% entre homens.
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Os pesquisadores observaram desempenho superior nos resultados femininos, mas ainda investigam as causas dessa diferença. Entre as hipóteses estão características naturais da voz masculina e feminina, a menor quantidade de homens na amostra e o fato de a depressão ser mais frequentemente diagnosticada em mulheres, o que pode influenciar na identificação de padrões.
A depressão é um transtorno mental sério, que vai além de tristeza passageira. Trata-se de uma condição que afeta tanto a mente quanto o corpo, podendo causar desânimo profundo, cansaço persistente e perda de interesse em atividades cotidianas.
A doença pode ter origem em fatores genéticos, alterações químicas cerebrais e eventos estressantes da vida. Também compromete tarefas básicas como trabalhar, estudar, dormir e manter relações sociais. O tratamento envolve acompanhamento profissional, com psicoterapia e, quando necessário, medicação prescrita por especialistas.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam que a tecnologia ainda não está pronta para uso clínico direto. O número de participantes foi limitado, e as diferenças de desempenho indicam a necessidade de novos testes e validações.
A proposta é que a IA funcione como ferramenta de triagem e apoio no acompanhamento de pacientes, especialmente em locais com dificuldade de acesso a especialistas. O sistema identifica padrões estatísticos, mas não substitui a avaliação clínica individual, que considera histórico de vida, sintomas persistentes e impacto na rotina do paciente.
O avanço ocorre em um cenário de aumento nos diagnósticos de depressão no Brasil. Dados do Vigitel apontam crescimento de 33% nos casos entre 2020 e 2024, com maior prevalência entre mulheres.
Nesse contexto, soluções digitais de baixo custo podem ampliar o rastreamento e facilitar a identificação precoce de pessoas que necessitam de avaliação médica. Especialistas reforçam, porém, que a tecnologia deve ser vista como ferramenta complementar, mantendo o atendimento humano como elemento central do cuidado em saúde mental.