A Finlândia está prestes a entrar para a história da energia nuclear com a inauguração do primeiro depósito geológico permanente do mundo destinado ao armazenamento de resíduos nucleares altamente radioativos. Batizado de Onkalo, que significa “caverna” em finlandês, o complexo foi projetado para guardar de forma definitiva combustíveis nucleares usados e outros materiais radioativos produzidos no país.
Localizado na ilha de Olkiluoto, no município de Eurajoki, o empreendimento é considerado um marco para a indústria nuclear global e pode servir de modelo para outras nações que buscam soluções de longo prazo para o descarte de resíduos radioativos.
Projeto começou há mais de duas décadas
As obras do Onkalo tiveram início em 2004 sob responsabilidade da empresa finlandesa Posiva. Após mais de 20 anos de estudos, escavações e desenvolvimento tecnológico, a expectativa é que a instalação entre em operação entre o final de 2026 e o início de 2027.
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O investimento já ultrapassa US$ 1,16 bilhão, o equivalente a cerca de R$ 5,8 bilhões. Antes da inauguração, o projeto ainda precisa receber autorização final da Autoridade Finlandesa de Segurança Radiológica e Nuclear, responsável pela fiscalização do setor nuclear no país.
Como funcionará o armazenamento
O depósito foi construído a aproximadamente 433 metros abaixo da superfície, escavado em uma formação rochosa com cerca de 1,9 bilhão de anos de idade, considerada extremamente estável do ponto de vista geológico.
O processo de armazenamento seguirá várias camadas de proteção:
- Os combustíveis nucleares usados serão colocados em cápsulas de cobre altamente resistentes à corrosão;
- As cápsulas serão depositadas em galerias subterrâneas perfuradas na rocha;
- Os compartimentos serão preenchidos com argila bentonítica, material capaz de absorver água e impedir movimentações;
- Por fim, os túneis serão selados com estruturas de concreto reforçado.
O objetivo é garantir que os resíduos permaneçam isolados do meio ambiente por dezenas de milhares de anos.
Solução para um desafio global
O armazenamento de resíduos nucleares é considerado um dos maiores desafios da indústria de energia atômica. Embora as usinas nucleares produzam grandes quantidades de energia com baixas emissões de carbono, o combustível utilizado permanece radioativo por períodos extremamente longos.
Com o aumento do uso da energia nuclear em diversos países como alternativa aos combustíveis fósseis, cresce também a necessidade de soluções seguras para o descarte desses materiais.
A Finlândia é uma das nações que mais avançaram nesse tema e busca garantir que todo o lixo radioativo gerado em seu território tenha destino definitivo dentro do próprio país.
Projeto divide opiniões
Apesar do amplo apoio obtido entre moradores da região e especialistas do setor energético, o empreendimento também enfrenta críticas de grupos ambientalistas.
A Associação Finlandesa para a Conservação da Natureza está entre as organizações que questionam os riscos de longo prazo associados ao armazenamento subterrâneo de resíduos radioativos.
Os defensores do projeto argumentam que o Onkalo oferece um nível de segurança sem precedentes e representa a alternativa mais segura disponível atualmente para o gerenciamento desses materiais.
Referência para o futuro
Especialistas internacionais acompanham de perto o projeto finlandês. Caso a operação seja bem-sucedida, o modelo poderá influenciar políticas de gestão de resíduos nucleares em diversos países que dependem ou pretendem ampliar a geração de energia nuclear.
O Onkalo simboliza uma tentativa inédita de resolver um problema que acompanha a indústria nuclear desde seu surgimento: garantir que resíduos perigosos permaneçam isolados da humanidade e do meio ambiente por períodos que ultrapassam milhares de gerações.