O Cerrado brasileiro perdeu 38% da área ocupada por rios, lagoas e outros corpos hídricos naturais nos últimos 38 anos. Os dados fazem parte de um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), elaborado com base na quinta coleção do MapBiomas Água, e revelam uma transformação significativa na dinâmica hídrica do segundo maior bioma do país.
Segundo o estudo, a perda corresponde a aproximadamente 348 mil hectares de água natural entre 1985 e 2023. Em sentido oposto, a área ocupada por corpos hídricos artificiais, como barragens, açudes e reservatórios, aumentou 87% no mesmo período, representando um acréscimo de cerca de 496 mil hectares.
Os pesquisadores alertam que o crescimento de estruturas artificiais não compensa a redução dos ambientes aquáticos naturais. Rios, lagoas, veredas e áreas úmidas desempenham funções ecológicas essenciais, como a manutenção da biodiversidade, a recarga de aquíferos, a regulação do clima e o equilíbrio dos ecossistemas.
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De acordo com o levantamento, a substituição da água natural por reservatórios torna a paisagem mais dependente de infraestrutura e aumenta a vulnerabilidade a secas prolongadas e eventos climáticos extremos. Além disso, compromete a conectividade entre ambientes aquáticos e reduz a capacidade dos ecossistemas de responder às mudanças ambientais.
A pesquisa aponta que 77% das regiões hidrográficas do Cerrado registraram redução dos corpos hídricos naturais. Entre as principais consequências estão a perda de habitats para diversas espécies, a degradação de áreas úmidas, impactos sobre a pesca de subsistência, maior insegurança hídrica e conflitos pelo uso da água.
Os especialistas também associam o avanço de barragens e reservatórios ao crescimento das atividades agropecuárias, à expansão da ocupação do solo, ao aumento da demanda por energia, à construção de sistemas de drenagem e à intensificação da captação de água.
Conhecido como o “berço das águas do Brasil”, o Cerrado abriga nascentes que alimentam algumas das principais bacias hidrográficas do país. Por isso, a redução de seus rios, lagoas e veredas naturais ultrapassa os limites do bioma, afetando o abastecimento de água, a produção agropecuária, a geração de energia, a biodiversidade e o modo de vida de comunidades tradicionais.
Para os pesquisadores, preservar os recursos hídricos naturais do Cerrado é fundamental para garantir a segurança hídrica e a manutenção dos serviços ambientais prestados pelo bioma às próximas gerações.