A ministra Cármen Lúcia fez um forte discurso sobre a violência contra mulheres no Brasil durante o evento “Todas e Todos Contra o Feminicídio”, promovido pelo Tribunal de Contas da União (TCU). A magistrada afirmou que o país vive um cenário de “barbárie” diante dos altos índices de feminicídio.
Durante a fala, a ministra destacou que o Brasil ainda está distante de uma sociedade plenamente civilizada enquanto mulheres continuam sendo assassinadas ou vítimas de violência em diversas formas.
“Eu não falo em recivilização, porque eu não falo em civilização em um local em que matam pessoas. Matam crianças, matam meninas fisicamente, socialmente, intelectualmente e psiquicamente. Isto não é civilização. Isto é barbárie”, declarou.
Em tom de resistência, a ministra acrescentou uma frase que marcou o discurso:
“Resolveram nos matar, resolvemos viver.”
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Dados alarmantes
Cármen Lúcia citou dados recentes que mostram a gravidade da violência de gênero no país. Segundo a ministra, uma mulher é assassinada no Brasil a cada menos de seis horas apenas por ser mulher.
Para ela, o combate ao feminicídio exige mudanças culturais, institucionais e jurídicas profundas, além de maior compromisso das autoridades e da sociedade.
Decisão histórica do STF
A ministra também lembrou uma decisão importante tomada pelo Supremo Tribunal Federal em março de 2025, que declarou inconstitucional o uso da chamada “defesa da honra” em julgamentos de feminicídio.
Esse argumento era utilizado por advogados para tentar justificar crimes cometidos contra mulheres, muitas vezes atacando a vida pessoal da vítima durante o julgamento.
Segundo Cármen Lúcia, essa prática reforçava a impunidade e contribuía para perpetuar a violência de gênero no país.
Crítica à desigualdade de espaços
Durante o discurso, a ministra também abordou a desigualdade de oportunidades entre homens e mulheres, especialmente nos espaços de poder.
Ela utilizou a metáfora da “gata borralheira” para descrever o histórico confinamento das mulheres ao ambiente doméstico, enquanto homens ocupam espaços de decisão e convivência social que favorecem relações de influência.
A magistrada citou, por exemplo, ambientes informais de networking entre homens que acabam influenciando indicações e promoções em cargos de poder.
Ao mesmo tempo, destacou que muitas mulheres enfrentam dupla ou até tripla jornada, dividindo-se entre trabalho, cuidados familiares e responsabilidades domésticas.
“Queremos ser amigas, queremos passear, queremos viver. Não queremos ser guerreiras o tempo todo, porque isso cansa”, afirmou.
Democracia depende da participação feminina
Ao encerrar o discurso, Cármen Lúcia reforçou que não existe democracia plena sem a participação das mulheres.
A ministra citou a escritora Conceição Evaristo ao afirmar que a resistência feminina é fundamental para transformar a sociedade.
“Combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer”, destacou, defendendo uma sociedade livre, justa e solidária, conforme prevê o artigo 3º da Constituição Federal.