Cáceres possui um território de aproximadamente 24 mil km² e tem grande parte de sua extensão inserida no Pantanal. Essa característica não é apenas geográfica. Ela determina a forma como o município produz, ocupa seu território, convive com as águas e precisa pensar seu desenvolvimento.
Nesse contexto, é necessário reconhecer o papel das propriedades rurais na conservação ambiental. Sítios e fazendas mantêm áreas de vegetação nativa, Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente, que se somam às unidades de conservação e Reservas Particulares do Patrimônio Natural existentes na região.
A relação entre produção e conservação em Cáceres, portanto, não pode ser tratada como uma simples oposição. O produtor rural vive dentro desse território, depende dos seus recursos naturais e também participa de sua conservação. Agro e natureza fazem parte de uma mesma realidade.
Os riscos identificados no município
Durante a Oficina de Mobilização e Planejamento Climático Municipal, realizada nos dias 17 e 18 de agosto, foram apresentados dados sobre riscos climáticos e vulnerabilidades existentes em Cáceres.
Entre os problemas apontados estão inundações, alagamentos urbanos e ondas de calor.
As inundações apresentam maior criticidade no entorno do Rio Paraguai e de seus afluentes, atingindo áreas de bairros como Espírito Santo, Rodeio, Cavalhada III, Jardim Imperial, Cidade Alta, Joaquim Murtinho, Massa Barro e Cohab Velha. Ocupação de áreas ambientalmente sensíveis, retirada de vegetação ciliar e assoreamento estão entre os fatores que podem aumentar a vulnerabilidade dessas regiões.
📲 Entre na comunidade de WhatsApp do Centroeste News e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI)!
Os alagamentos atingem principalmente áreas urbanizadas. Espírito Santo, Jardim Marajoara, Cavalhada III, Cidade Nova, Santa Izabel, São Lourenço e Cidade Alta aparecem entre as regiões de maior atenção. Nesse caso, impermeabilização do solo, drenagem insuficiente e redução das áreas verdes contribuem para agravar os efeitos das chuvas.
As ondas de calor, por sua vez, atingem praticamente todo o território municipal, com diferentes níveis de intensidade. Jardim Marajoara, Cidade Nova, Cavalhada III, Cohab Velha, Santa Izabel, Espírito Santo, Cidade Alta, Vila Mariana e Rodeio aparecem entre as áreas de maior criticidade.
Esse dado chama a atenção para uma questão que muitas vezes fica em segundo plano no debate climático: a cidade também precisa rever sua relação com o território.
Arborização, drenagem, ocupação do solo, proteção das margens dos cursos d’água e planejamento urbano precisam fazer parte da resposta às mudanças climáticas.
E onde entra a produção rural?
O diagnóstico apresentado aponta que as emissões líquidas de gases de efeito estufa de Cáceres chegaram a 10.565 ktCO₂e em 2022, com 98,2% atribuídas ao setor AFOLU — Agricultura, Floresta e Outros Usos da Terra.
Esse número precisa ser compreendido corretamente.
AFOLU não significa simplesmente “agropecuária”. A categoria reúne agricultura, pecuária, florestas e, principalmente, mudanças relacionadas ao uso e à cobertura da terra. Essa distinção é fundamental para que o diagnóstico não produza soluções genéricas para problemas que possuem origens diferentes.
Se o problema está no uso inadequado do território, a resposta não pode ser simplesmente responsabilizar quem produz. É preciso identificar onde estão as emissões, suas causas e quais grupos possuem condições diferentes de responder a elas.
Cáceres possui desde grandes propriedades tecnificadas até pequenos produtores que enfrentam dificuldades de infraestrutura, assistência técnica, comercialização e acesso às tecnologias.
Uma política climática eficiente precisa reconhecer essas diferenças.
Pequenos centros produtivos como parte da solução
É justamente nesse ponto que os pequenos centros produtivos nas comunidades rurais podem representar uma estratégia importante para Cáceres.
Esses centros podem reunir estruturas simples de processamento, armazenamento, classificação e comercialização da produção, permitindo que parte do valor seja agregada dentro da própria comunidade.
Mais do que pontos de venda, podem funcionar como espaços de organização dos produtores, capacitação, assistência técnica, acesso a tecnologias e planejamento coletivo.
Também podem fortalecer as cadeias curtas de abastecimento, aproximando quem produz de quem consome e reduzindo perdas e custos de deslocamento.
Há ainda uma questão estratégica: aumentar a renda rural não precisa significar aumentar a área utilizada para produzir.
Tecnologia, manejo, integração de atividades, aproveitamento de resíduos, biofertilizantes, recuperação de áreas produtivas e melhoria da eficiência permitem ampliar produtividade e renda dentro das áreas já utilizadas.
Para o pequeno produtor, entretanto, essa transformação dificilmente acontecerá de maneira isolada. É necessário criar estruturas que permitam acesso coletivo ao conhecimento, equipamentos, mercados e novas tecnologias.
Produção e preservação precisam caminhar juntas
O debate climático de Cáceres precisa partir de sua própria realidade.
Não podemos simplesmente importar modelos de desenvolvimento ou conservação construídos para outros territórios e aplicá-los ao Pantanal sem considerar sua dinâmica ambiental, econômica, social e cultural.
Isso não significa diminuir a importância da conservação. Significa exatamente o contrário: construir mecanismos capazes de fazê-la funcionar na realidade.
Unidades de Conservação, fiscalização e instrumentos de comando e controle são importantes, mas não podem constituir a única resposta.
Assistência técnica, incentivo à produção sustentável, Pagamento por Serviços Ambientais, recuperação ambiental, inovação, acesso à tecnologia e organização das comunidades produtoras também precisam fazer parte da política climática.
A pergunta que Cáceres precisa responder não é se deve escolher entre produzir ou preservar.
A pergunta é: como podemos produzir melhor, gerar renda e conservar o território do qual nossa própria economia depende?
Parte dessa resposta pode estar justamente no fortalecimento das comunidades rurais e na criação de pequenos centros produtivos capazes de organizar produção, conhecimento, tecnologia e comercialização.
Cáceres não precisa escolher entre o Pantanal e o desenvolvimento.
Precisa transformar o Pantanal, sua produção e o conhecimento de quem vive nesse território em uma estratégia própria de desenvolvimento sustentável.
Porque preservar o território também significa criar condições para que as pessoas possam continuar vivendo e produzindo nele.
Fernanda Machado
Doutora em Sustentabilidade
Referências
Diagnóstico de Áreas Críticas e Capacidade de Gestão para Adaptação do Clima — Cáceres, Programa Mutirão Brasil Cidades Amazônicas / C40 Cities / Prefeitura de Cáceres.
Bússola Climática — Perfil de Emissões de Cáceres.
CityCatalyst — Metodologia de Inventário de Emissões e Avaliação de Riscos Climáticos.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE.
Código Florestal Brasileiro — Lei nº 12.651/2012.
Por Fernanda Machado, embaixadora da “Vozes da pecuária – território São Luiz e Trindade/Pecuária Tropical pelo Clima. As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade da autora e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial do Centroeste News.