Ela viajou 125 km de Granito, em Pernambuco, até o Crato, no Ceará, para aproveitar a Expocrato. Em vez disso, voltou para casa com um aperto no peito e a sensação de ter sido enganada. Priscila Justino, de 34 anos, é uma das dezenas de pessoas que denunciaram uma prática que já ganhou nome e repercussão nas redes sociais: o “golpe do doce”. O caso aconteceu no stand da Doceria Deleites, uma barraca mineira instalada na Exposição Agropecuária do Crato, e expõe uma situação que une desinformação, constrangimento e um valor que chega a R$ 330 por três pedaços de doce.
A dinâmica, segundo os relatos, é sempre parecida. O estabelecimento anuncia o valor de R$ 19,90 a cada 100 gramas, mas não informa claramente o tamanho correspondente a essa porção. Um funcionário pede que o próprio cliente marque onde quer o corte na barra — que pode pesar até 25 quilos — e, depois de cortado, o produto não pode mais ser devolvido.
O problema é que o consumidor não tem a menor noção do peso da fatia que está pedindo. O resultado aparece na balança: valores que chegam a R$ 117, R$ 137, R$ 177 e até R$ 330. Ao tentar desistir, os clientes afirmam ter sido constrangidos pelos vendedores, com frases como “se cortou, tem que levar” e “aqui é self-service”, em tom de voz alto que chamava a atenção de quem estava na fila.
Priscila conta que pediu um pedaço de “dois dedos” de espessura, mas o vendedor aprofundou a espátula e o peso disparou. Ao chegar no caixa, ouviu gritos e se viu encurralada pela situação. “Eu paguei por vergonha”, desabafou.
O empresário Breno de Freitas, que também passou pela mesma experiência, resistiu à pressão e desistiu da compra, mas fez uma reflexão que ecoa entre as vítimas: “E se fosse um idoso, uma pessoa leiga, alguém que não sabe dizer não?” O criador digital Wellington Barros e o biólogo Márcio Holanda não tiveram a mesma sorte — ambos pagaram a contragosto, um deles chegando a parcelar o valor no cartão de crédito, mesmo sem ter o costume de usar a função.
O caso chegou ao Ministério Público do Ceará. O Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Decon) fiscalizou o stand e constatou prática abusiva: os preços não estavam expostos de forma clara e os produtos não tinham indicação de tamanho ou peso.
O promotor Thiago Marques explicou que o cliente não é obrigado a finalizar a compra quando percebe inconsistências, e que o adequado seria a pessoa ver o produto e saber o que corresponde a 100 gramas antes de pedir o corte. A fiscalização recomendou melhorias na exposição das informações e, se o estabelecimento não se adequar, pode ser interditado. Enquanto isso, a Doceria Deleites nega golpe.
Um representante da empresa afirmou que “não tem como mensurar numa barra de 25 quilos uma fração de 100 gramas exata” e que os clientes têm liberdade para escolher o tamanho da fatia — mas evitou comentar as denúncias de constrangimento. Nas redes sociais, os relatos continuam se multiplicando, e o que poderia ser apenas um doce deixou um gosto amargo em dezenas de consumidores.