O Brasil reagiu ao novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos — uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros que deve entrar em vigor no dia 22 — com uma operação de guerra montada por sete nomes do alto escalão do governo.
Em entrevista coletiva, vice-presidente, ministros da Fazenda, Desenvolvimento, Meio Ambiente, o chanceler, o presidente do Banco Central e a secretária nacional de Justiça se revezaram para refutar os argumentos americanos e traçar os próximos passos. A leitura oficial é de que a medida não tem base técnica e carrega motivação política explícita.
O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a taxação como “injusta e descabida”, enquanto o ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi além e falou em “interferência externa indevida”.
O presidente Lula usou as redes sociais para afirmar que não há justificativa para a decisão da Casa Branca e que o Brasil não vai abrir mão de defender o Pix, a soberania e os produtores nacionais. Nos cálculos do Ministério do Desenvolvimento, a nova taxação afeta 18% das exportações brasileiras para os EUA, algo como US$ 7,4 bilhões considerando a base de 2024.
O tom subiu alguns degraus na véspera, quando o secretário de Estado americano, Marco Rubio, escreveu em uma rede social que Lula não negociou em boa-fé e colocou o ego acima de um acordo. A resposta veio na tarde seguinte pelo chanceler Mauro Vieira, que chamou as declarações de “inaceitáveis” e disse que Rubio atacou o presidente “de forma grosseira e arrogante”.
Vieira lembrou ainda que as tarifas para o Brasil saltaram de 10% para 50% no ano passado depois de uma carta enviada por Trump a Lula em razão do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro — o que, segundo ele, escancara a motivação política da medida. “Expressa tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro”, afirmou.
Apesar da firmeza no discurso, o governo optou por adiar qualquer medida de reciprocidade. Alckmin sinalizou que a Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso no ano passado, será usada “no momento adequado”.
Durigan confirmou que levará a proposta de retaliação a Lula e a um grupo de ministros, mas sem pressa. A estratégia, segundo interlocutores do Planalto, é manter a porta aberta para negociação enquanto o governo americano enfrenta uma agenda lotada com Europa, China e crises geopolíticas.
Enquanto isso, o governo já prepara o socorro às empresas afetadas. O programa Brasil Soberano deve oferecer linhas de crédito com juros subsidiados, em volume mais modesto do que o plano lançado em agosto passado. O ministro do Desenvolvimento, Marcio Elias Rosa, listou os setores mais atingidos — madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, cerâmica, calçados e açúcar — e garantiu que poderão contar com ajuda federal de diferentes formas, incluindo a diversificação de exportações.
O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, rebateu as acusações americanas de que o Brasil enche o mercado internacional de madeira ilegal, lembrando que a participação do país no mercado global de madeira é de apenas 0,65% e que a madeira tropical brasileira não compete com a madeira de floresta temperada usada pela indústria americana.
Para analistas ouvidos pela reportagem, o caminho mais realista é esperar o fim da era Trump para retomar relações comerciais estáveis. O ex-embaixador Rubens Ricupero lembra que o Brasil diversificou seus parceiros e que a Ásia responde por cerca de 50% das exportações, o que reduz a dependência do mercado americano.
O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral avalia que qualquer negociação mais concreta deve ficar para o ano que vem, já que os EUA estão mais preocupados com Europa e China neste momento. Por ora, o governo brasileiro aposta no discurso de defesa da soberania e na paciência estratégica.