As águas subterrâneas, responsáveis por abastecer bilhões de pessoas e manter o equilíbrio de diversos ecossistemas, podem enfrentar um aumento significativo de temperatura nas próximas décadas em consequência das mudanças climáticas. A conclusão é de um estudo desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT), na Alemanha, que projeta impactos preocupantes para a qualidade da água e para a segurança hídrica mundial até o fim do século.
Segundo a pesquisa, caso o aquecimento global continue avançando, a temperatura das águas subterrâneas poderá aumentar entre 2,1°C e 3,5°C até 2100, comprometendo sua qualidade e ampliando os desafios para o abastecimento humano em diversas regiões do planeta.
Recurso invisível, mas essencial
Embora permaneçam ocultas sob a superfície, as águas subterrâneas desempenham papel fundamental na manutenção dos ecossistemas.
Elas alimentam rios, lagos, nascentes, áreas alagadas, manguezais e florestas, especialmente em regiões de clima tropical e semiárido. Também ajudam a manter a umidade do solo durante períodos de estiagem e atuam como uma importante barreira natural contra a intrusão de água salgada em áreas costeiras.
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Além da importância ambiental, representam uma das principais fontes de água potável para milhões de pessoas e são amplamente utilizadas na agricultura, na indústria e no abastecimento urbano.
Pesquisa projeta aumento expressivo da temperatura
Para avaliar os impactos futuros, os cientistas desenvolveram um modelo climático capaz de estimar como o aquecimento da atmosfera afetará as reservas subterrâneas de água.
A pesquisa analisou dois cenários distintos: um de emissões moderadas de gases de efeito estufa e outro com aquecimento mais intenso.
Mesmo na projeção mais otimista, os resultados indicam aumento consistente da temperatura das águas subterrâneas, com efeitos mais severos em regiões onde o lençol freático é raso e o aquecimento do ar ocorre de forma mais intensa.
Qualidade da água pode ser comprometida
O aumento da temperatura pode alterar significativamente as características químicas e biológicas da água subterrânea.
Segundo os pesquisadores, águas mais quentes favorecem reações que aumentam a concentração de substâncias potencialmente tóxicas, como arsênio e manganês.
Quando presentes em níveis elevados, esses elementos podem representar riscos à saúde humana, especialmente para populações que utilizam água subterrânea diretamente para consumo, sem tratamento adequado.
Além disso, temperaturas mais altas podem favorecer a proliferação de microrganismos patogênicos, tornando a água menos segura e exigindo tratamentos adicionais, como fervura ou processos mais avançados de purificação antes do consumo.
Centenas de milhões de pessoas podem ser afetadas
As projeções do estudo indicam que os impactos poderão atingir uma parcela significativa da população mundial.
No cenário mais favorável, entre 77 milhões e 188 milhões de pessoas poderão enfrentar problemas relacionados à qualidade da água subterrânea.
Caso as emissões globais de gases de efeito estufa permaneçam elevadas, esse número poderá alcançar até 588 milhões de pessoas sem acesso seguro à água potável proveniente dessas reservas naturais.
Impactos vão além do abastecimento humano
Os efeitos do aquecimento das águas subterrâneas não se limitam ao consumo humano.
Mudanças na temperatura podem afetar diretamente os ecossistemas que dependem dessas reservas hídricas, alterando a biodiversidade, comprometendo habitats aquáticos e interferindo em processos ecológicos fundamentais, como os ciclos do carbono e dos nutrientes.
Especialistas alertam que esses impactos podem reduzir a resiliência dos ecossistemas diante das mudanças climáticas, agravando problemas ambientais já observados em diversas regiões do planeta.
Proteção das águas subterrâneas torna-se prioridade
Os autores do estudo defendem que políticas públicas voltadas à mitigação das mudanças climáticas e à proteção dos aquíferos sejam fortalecidas nas próximas décadas.
Entre as medidas consideradas prioritárias estão a redução das emissões de gases de efeito estufa, o monitoramento permanente da qualidade das águas subterrâneas, o controle da contaminação ambiental e o uso sustentável dos recursos hídricos.
Segundo os pesquisadores, preservar essas reservas será fundamental para garantir a segurança hídrica, a saúde pública e a conservação dos ecossistemas diante de um cenário climático cada vez mais desafiador.