Pesquisadores identificaram vestígios de cocaína e álcool em restos mumificados de pessoas que participaram de cerimônias de capacocha, um dos rituais religiosos mais importantes do Império Inca. O estudo, liderado pela Universidade de Varsóvia, na Polônia, foi publicado na revista científica Antiquity nesta terça-feira (3).
A capacocha era uma cerimônia realizada entre os séculos XV e XVI, durante a qual crianças e mulheres jovens eram sacrificadas em homenagem a divindades consideradas fundamentais para a sociedade inca. Segundo as crenças da época, essas pessoas poderiam atuar como intermediárias entre o mundo dos vivos e o plano divino.
A pesquisa analisou oito múmias encontradas em regiões montanhosas do Peru e da Argentina. Para investigar o consumo de substâncias, os cientistas examinaram amostras de cabelo e unhas, que podem preservar sinais químicos de exposição a determinadas substâncias mesmo após centenas de anos.
Os resultados indicaram que todos os indivíduos analisados haviam consumido coca, provavelmente por meio da mastigação das folhas da planta. Em alguns casos, também foram encontrados indícios de consumo de álcool, possivelmente associado à chicha, uma bebida tradicional fermentada à base de milho.
Os pesquisadores apontam que o uso dessas substâncias pode estar relacionado às práticas religiosas e ao papel atribuído aos indivíduos escolhidos para a capacocha. Na cosmologia inca, a comunicação com as divindades e a interpretação de sinais espirituais tinham grande importância.
A presença de coca e álcool nos restos analisados oferece novas pistas sobre como essas cerimônias eram conduzidas. No entanto, os resultados não permitem afirmar com certeza qual era a finalidade do consumo em cada caso, nem se todas as pessoas submetidas ao ritual recebiam as mesmas substâncias.
A análise de materiais preservados em cabelo e unhas amplia as possibilidades de investigação arqueológica, permitindo estudar hábitos e práticas de sociedades antigas a partir de evidências químicas.
Fonte: Revista Antiquity e Universidade de Varsóvia.
Imagem: J. Reinhard.