O recente surto de hantavírus trouxe de volta ao debate público um conjunto de termos que, desde a pandemia de covid-19, passaram a fazer parte do vocabulário de muita gente, mas que raramente são usados com o significado correto. Endêmico, epidêmico e pandêmico não descrevem o quão perigosa uma doença é, como muitos imaginam, mas sim a forma como ela se espalha no tempo e no espaço. Essa distinção, embora pareça sutil, é fundamental para entender como as autoridades de saúde classificam as ameaças e orientam suas respostas.
Quando uma doença ocorre de forma regular e constante em uma determinada região, os especialistas a chamam de endêmica. O número de casos pode ser alto, mas se mantém relativamente estável ao longo do tempo, sem picos repentinos. A malária é um exemplo clássico: afeta centenas de milhões de pessoas todos os anos, principalmente nos trópicos, mas sua incidência não varia drasticamente de um ano para o outro. Ser endêmico não significa ser inofensivo. Doenças endêmicas podem ser graves e até fatais, mas sua característica central é a previsibilidade geográfica e temporal.
O cenário muda quando o número de doentes em uma região ultrapassa o nível normalmente esperado para aquela área. Aí se fala em epidemia. Quando os casos se concentram em um local específico e limitado, os especialistas costumam chamar de surto. Uma epidemia pode surgir por vários motivos: um vírus sofre mutação e se torna mais contagioso, ou uma doença é introduzida em uma população que nunca teve contato com aquele patógeno. Foi exatamente o que aconteceu com a varíola trazida pelos europeus às Américas no século XVI. Como os povos indígenas não tinham imunidade alguma, estima-se que até 90% da população nativa tenha sido dizimada pela doença.
Quando a doença não fica restrita a uma região, mas se espalha entre países e continentes, os epidemiologistas passam a usar o termo pandemia. A palavra não diz nada sobre a letalidade do vírus, mas sim sobre sua capacidade de disseminação global. O que define uma pandemia é a necessidade de cooperação internacional entre sistemas de saúde para conter o avanço. As pandemias costumam ser causadas por novos patógenos ou por tipos virais que ainda não circularam entre os seres humanos, o que significa que poucas pessoas têm imunidade e, inicialmente, não há vacinas disponíveis. A gripe espanhola de 1918, que matou entre 25 e 50 milhões de pessoas, e a gripe suína H1N1, em 2009, são exemplos históricos de pandemias que marcaram suas épocas.
Mesmo em cenários pandêmicos, áreas isoladas como ilhas ou regiões montanhosas podem ser poupadas, mas o tráfego aéreo global torna cada vez mais difícil conter a disseminação de novos vírus. E, por fim, vale notar que os termos epidemia e pandemia são ocasionalmente usados de forma metafórica para descrever problemas de saúde pública que não são infecciosos, como a chamada epidemia de diabetes ou a epidemia de opioides. O uso da palavra empresta urgência ao tema, mas não deve ser confundido com o sentido técnico que a epidemiologia reserva a cada um desses conceitos.