CentroesteNews
24/06/2025
As crianças não brincam mais na rua. Chegam à adolescência sem saber andar sozinhas pelo bairro. Vivem hiperconectadas e, ainda assim, solitárias. Dizem-se exaustas, desenvolvem ansiedade, depressão e, em muitos casos, automutilação. Vivem fortemente supervisionadas no mundo físico, mas vagam livremente pelo caos descontrolado do mundo digital. Muitas relatam sentir-se cada vez mais distantes da vida real.
A proibição do uso de celulares nas escolas brasileiras marca um passo significativo na proteção da atenção e do bem-estar dos alunos. Mas, mesmo limitando a influência dos dispositivos digitais nas salas de aula, uma questão mais profunda permanece: estamos preparando nossas crianças para enfrentar o mundo real com autonomia, confiança e resiliência?
O problema vai além da escola. Segundo o Unicef, crianças entre 8 e 12 anos passam, em média, quase cinco horas por dia em frente a telas fora do ambiente escolar. O desafio, portanto, não é apenas pedagógico — é social, cultural e familiar.
No livro A Geração Ansiosa, lançado no Brasil no final de 2024, uma das recomendações mais urgentes é dar independência no mundo físico às crianças. Isso significa permitir que elas assumam riscos, tomem decisões e interajam sem supervisão — habilidades que serão essenciais para a vida adulta.
Infelizmente, muitas vivem hoje em um estado de supervisão quase constante. Seus dias são planejados, seus movimentos são restritos e suas oportunidades de explorar o mundo em seus próprios termos são cada vez mais raras.
A superproteção costuma ser movida pelo medo — um medo com motivos reais, mas que nem sempre se sustenta em dados: a percepção de insegurança é, muitas vezes, maior do que a violência de fato. O problema é que, ao protegê-las demais no mundo real e negligenciá-las no ambiente virtual, estamos pagando um preço alto em relação à autoconfiança e à saúde mental de crianças e adolescentes.
Em vez disso, devemos investir em ambientes seguros que permitam a exploração e o crescimento. É necessária a cooperação entre escolas, famílias e comunidades. Projetos como o Escola Aberta, que já funcionam em cidades como São Paulo e Recife, estão ampliando o uso dos espaços escolares aos fins de semana, criando centros de convivência e lazer que reforçam o papel da escola como espaço comunitário.
O problema não é só o excesso de tempo online
É hora de reformular a conversa. O problema não é apenas que as crianças passam muito tempo online — é também que elas não passam tempo suficiente offline, vivendo experiências significativas e independentes.
A verdadeira liberdade ensina resolução de problemas, coragem e autorregulação — características que não podem ser aprendidas num quarto trancado e na frente de uma tela brilhante.
Precisamos estar atentos às regras que reforçam o controle excessivo. Várias cidades brasileiras, por exemplo, proíbem crianças de usarem elevadores desacompanhadas antes dos 10 ou 12 anos. Em São Paulo, existe até uma proibição para que crianças subam em árvores nos parques municipais.
Em vez de proibir, é necessário criar condições estruturadas e seguras para o desenvolvimento da autonomia infantil.
Caminhos possíveis: confiança e comunidade
No Reino Unido, alguns bairros começaram a adotar o revezamento da supervisão parental no contraturno escolar, permitindo que as crianças brinquem livremente em espaços públicos com segurança compartilhada.
No Brasil, algumas escolas têm se aberto aos fins de semana, oferecendo espaços de convivência que valorizam o brincar e o tempo livre. Esse é um passo pequeno, mas importante, rumo à criação de um ecossistema compartilhado de confiança e responsabilidade.
O papel da tecnologia: equilibrar, não demonizar
O debate brasileiro também ganhou relevância recentemente com a discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a regulação das plataformas digitais. Cresce a preocupação com os efeitos da dopamina digital — likes, notificações e vídeos em rolagem infinita — sobre o cérebro, especialmente o das crianças.
A tecnologia não pode ser demonizada, mas é urgente encontrar formas de garantir que seu uso ocorra dentro de parâmetros saudáveis. A geração que cresce hoje não está apenas cercada por tecnologia — é moldada por ela.
Ao mesmo tempo que o mundo digital se impõe como inevitável, devemos garantir que o mundo real continue acessível, estimulante e habitável para nossas crianças.
Isso exige uma mudança cultural profunda, que valorize o brincar, o tempo livre, a convivência entre gerações e a confiança na autonomia progressiva das crianças.
É possível imaginar um futuro em que o digital conviva com o físico de forma mais equilibrada. Mas isso depende de decisões conscientes no presente — por parte das famílias, educadores, governos e empresas de tecnologia.
À medida que navegamos por esta encruzilhada geracional, precisamos fazer mais do que apenas restringir hábitos digitais prejudiciais. Devemos construir ativamente uma cultura que crie crianças mais livres e fortes — não apesar dos desafios do nosso tempo, mas justamente por causa deles.