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13/01/2026
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O Irã enfrenta a maior onda de protestos antigovernamentais de sua história recente, entrando na terceira semana consecutiva de manifestações contra o regime do Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Com mais de dois mil mortos, segundo estimativas de organizações independentes, os atos já superam em escala e intensidade os protestos de 2009, motivados por denúncias de fraude eleitoral, e os de 2022, desencadeados pela morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade.
A dimensão e a persistência das mobilizações colocam o país no momento mais crítico desde a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi e instaurou a República Islâmica. A atual explosão social é resultado de uma combinação de crise econômica profunda, desgaste político do regime e repressão violenta, que vem ampliando o alcance dos protestos.
Apesar de deter a segunda maior reserva de gás natural do mundo e a quarta maior reserva comprovada de petróleo, a economia iraniana atravessa um processo acelerado de deterioração. Fortemente dependente do setor petrolífero, o país sofre com o endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, que restringem exportações, acesso a divisas e investimentos internacionais.
O cenário é agravado por escassez de água e energia, que afeta a produção industrial, o agronegócio e o cotidiano da população. A inflação elevada e a desvalorização do rial frente ao dólar corroeram o poder de compra e atingiram em cheio os Bazaari, tradicional classe de comerciantes iranianos. Historicamente influente, esse grupo teve papel central na derrubada do xá em 1979, e voltou a ser protagonista ao ocupar as ruas de Teerã no fim de 2025, dando início à atual onda de protestos.
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Nos últimos dias, as manifestações deixaram de ser localizadas e se espalharam pelas 31 províncias do país. Mulheres passaram a ocupar papel central, reivindicando mais liberdade individual e o fim das restrições impostas pelo regime islâmico. Setores opositores também aderiram aos atos, mesmo em um contexto de oposição fragmentada, enfraquecida por prisões, exílios e silenciamento de lideranças ao longo dos últimos anos.
A resposta do Estado tem sido marcada por repressão violenta, cortes prolongados de internet e prisões em massa. Esse cenário ampliou a atenção internacional. A União Europeia avalia novas sanções, enquanto os Estados Unidos adotaram um discurso mais duro, levantando a possibilidade de intervenção caso a repressão continue e o bloqueio informacional se prolongue.
Embora os protestos levantem questionamentos inéditos sobre a permanência de Ali Khamenei, no poder há 35 anos, especialistas avaliam que uma mudança de regime é improvável no curto prazo. Segundo a professora Muna Omran, especialista em Oriente Médio, não há sinais de ruptura entre o clero xiita, as Forças Armadas e os aparatos de segurança.
A estrutura política iraniana dificulta transições rápidas. O poder é fragmentado de forma estratégica, o que impede a substituição direta da liderança. Mesmo em um cenário de colapso do clero, o controle tenderia a migrar para os militares ligados ao regime, mantendo o país sob um modelo autoritário.
A hipótese de retorno da monarquia, liderada por Reza Pahlavi, filho do xá deposto, também é vista com ceticismo. Vivendo no exílio nos Estados Unidos, ele não teria apoio interno suficiente nem legitimidade popular para liderar uma transição.
Nos últimos dias, o presidente norte-americano Donald Trump voltou a ameaçar uma possível ação militar contra o Irã. No entanto, uma intervenção direta enfrenta obstáculos geopolíticos significativos. A proximidade estratégica do Irã com China e Rússia funciona como fator de contenção a uma escalada maior.
A China depende do petróleo iraniano, enquanto a Rússia mantém interesses militares e estratégicos na região. Mesmo em caso de ataque, analistas avaliam que o padrão recente da política externa dos EUA aponta para conflitos curtos e controlados, com trocas de ameaças, retaliações calculadas e posterior retorno ao status anterior.
Enquanto isso, dentro do Irã, o regime tenta demonstrar força. Nesta segunda-feira (12), funerais de agentes de segurança e civis mortos nos protestos foram transformados em atos públicos de apoio ao governo, com imagens amplamente divulgadas pela mídia estatal.
O país segue, assim, em um impasse histórico: protestos massivos e inéditos, repressão severa, pressão internacional e um regime que, apesar do desgaste, ainda mantém controle institucional e militar.