A concha de um caracol pode funcionar como uma espécie de registro natural das condições ambientais vivenciadas pelo animal ao longo da vida. É o que indica uma pesquisa publicada na revista científica The Holocene, que identificou sinais de chuvas extremas associadas a ciclones tropicais na Austrália.
O estudo analisou a concha de um caracol terrestre da espécie Figuladra bayensis, conhecido como Biggenden Banded Snail, encontrado no Parque Nacional Coalstoun Lakes, em Queensland. O exemplar foi coletado em 2018, pouco depois de sua morte, e os pesquisadores estimaram que ele viveu aproximadamente quatro anos e meio.
Por meio da datação por radiocarbono e da análise de isótopos estáveis de oxigênio e carbono, os cientistas investigaram como a concha se desenvolveu ao longo do tempo. Os resultados mostraram que o crescimento não ocorreu de maneira uniforme, com períodos de aceleração relacionados a episódios de precipitação intensa.
A concha dos caracóis é formada por novas camadas à medida que o animal cresce. Essas estruturas podem preservar informações sobre o ambiente, incluindo variações de temperatura, umidade, chuvas e aspectos relacionados à alimentação e ao funcionamento do organismo.
Durante a pesquisa, foram coletadas 200 pequenas amostras para análise isotópica, além de outras oito destinadas à datação por radiocarbono. As oscilações menores identificadas nos níveis de oxigênio foram associadas a mudanças sazonais. Já duas alterações mais expressivas, de aproximadamente 6‰, coincidiram com períodos influenciados pelos ciclones tropicais Marcia, em 2015, e Debbie, em 2017, ambos responsáveis por chuvas intensas na região.
A hipótese inicial era de que o crescimento mais rápido do caracol estivesse relacionado a anos com maior volume de chuva, que poderiam aumentar a disponibilidade de vegetação e alimento. No entanto, os resultados apontaram para uma possível conexão mais específica com eventos extremos de precipitação, demonstrando como as conchas podem contribuir para o estudo do clima do passado.