Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram, em laboratório, novas moléculas que apresentaram resultados promissores contra cânceres cerebrais particularmente agressivos. O estudo foi publicado na revista científica ACS Omega na última segunda-feira (2/2) e investigou substâncias criadas a partir da modificação de um quimioterápico já utilizado na prática clínica.
Os compostos foram testados em células de glioma e glioblastoma, dois tipos de tumor do sistema nervoso central conhecidos pela alta agressividade, rápida progressão e dificuldade de tratamento.
Como a pesquisa foi conduzida
O estudo foi liderado pela cientista Luciana Costa Furtado durante seu doutorado. A equipe produziu inicialmente 11 moléculas com estrutura química semelhante ao belinostate, medicamento utilizado principalmente no tratamento de cânceres hematológicos.
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A proposta era manter o mecanismo de ação do fármaco original (que atua na regulação da expressão gênica das células tumorais) mas ampliar seu potencial para aplicação em tumores sólidos, como os cerebrais.
Nos primeiros experimentos, os pesquisadores avaliaram a capacidade das moléculas de induzir a morte de células cancerígenas. Quatro compostos se destacaram e avançaram para testes adicionais em linhagens celulares ainda mais agressivas.
Nessa etapa, duas moléculas apresentaram desempenho superior, com destaque para um composto da classe dos ácidos graxos hidroxâmicos.
Atuação em células mais resistentes
As substâncias também foram testadas em células-tronco de glioblastoma, consideradas especialmente resistentes às terapias convencionais. Segundo a pesquisadora, essas células costumam escapar dos tratamentos porque não expressam, em quantidade suficiente, as proteínas que servem como alvo de muitos medicamentos.
“Elas podem estar relacionadas à resistência à quimioterapia e à recidiva do tumor”, explicou Furtado em comunicado.
Além dos testes laboratoriais, os cientistas realizaram simulações computacionais para prever como as moléculas poderiam se comportar no organismo. Os resultados indicaram um perfil farmacocinético favorável, sugerindo que os compostos teriam potencial para alcançar o tumor em concentração adequada para exercer efeito terapêutico.
Cooperação internacional e próximos passos
A pesquisa envolveu colaboração entre diferentes instituições. A síntese das moléculas foi realizada na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. Os testes celulares contaram com a participação do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP) e da Universidade de Groningen, na Holanda. As análises computacionais foram feitas em parceria com a Universidade de Tübingen, na Alemanha.
Apesar dos resultados animadores, os autores destacam que ainda são necessários novos estudos antes de qualquer aplicação clínica. As próximas etapas incluem testes adicionais para confirmar a eficácia e a segurança das substâncias, antes que possam avançar para estudos em humanos.
Especialistas ressaltam que o desenvolvimento de novos tratamentos contra tumores cerebrais é um dos grandes desafios da oncologia, devido à complexidade do sistema nervoso central e às barreiras naturais que dificultam a ação de medicamentos no cérebro.