Seu Principal Portal de Notícias
Cotação
DÓLAR --
EURO --
LIBRA --

Por que a guerra do Irã ameaça o coração do agronegócio brasileiro

Compartilhar

A escalada de tensão no Oriente Médio, marcada pela guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel, ultrapassa fronteiras e começa a atingir um setor vital da economia brasileira: o agronegócio. A instabilidade no estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de gás natural e fertilizantes — especialmente a ureia — acendeu um alerta vermelho no mercado nacional, que já opera sob forte dependência externa.

Mesmo após o presidente norte-americano Donald Trump anunciar um cessar-fogo temporário condicionado ao livre tráfego marítimo, o risco de ruptura logística permanece elevado. Para o Brasil, esse não é apenas um problema diplomático: trata-se de uma ameaça direta a uma cadeia produtiva responsável por quase 30% do PIB nacional.

 O estreito de Ormuz: o gargalo que sustenta as lavouras brasileiras

Grande parte da ureia utilizada no Brasil — insumo essencial para impulsionar o crescimento das lavouras — chega por navios que atravessam Ormuz. O Irã é um dos fornecedores mais estratégicos desse fertilizante, tendo movimentado, só em 2025, mais de US$ 72 milhões na exportação dessa matéria-prima ao Brasil.

Além dele, o Catar também exporta ureia pelo mesmo corredor marítimo. Com bombardeios, ameaças e ataques a infraestruturas petroquímicas, como o ocorrido em Mahshahr, qualquer interrupção pode provocar um efeito dominó sobre toda a produção agrícola brasileira.

Entre na comunidade de WhatsApp do Centroeste News e receba notícias em tempo real 

centro oeste news 3

(CLIQUE AQUI)!

 Um país gigante, mas dependente

Apesar de ser potência mundial na exportação de alimentos, o Brasil é altamente vulnerável quando o assunto é insumos:

  • Importa mais de 90% dos fertilizantes que utiliza.
  • Compra cerca de 75% dos defensivos agrícolas de fornecedores estrangeiros.
  • Depende do Irã, Rússia e China para garantir competitividade no campo.

A Rússia segue como principal fonte de NPK, mas quando se fala em ureia — produzida a partir do gás natural — o protagonismo é iraniano.

Essa dependência profunda faz com que qualquer instabilidade no Oriente Médio repercuta imediatamente nos preços internos do agro, elevando custos de produção e pressionando a inflação dos alimentos.

 O sistema barter e o impacto que vai além das fazendas

Nos últimos anos, Brasil e Irã estruturaram uma relação comercial muito específica: o barter.
Nele, produtores brasileiros pagam parte dos insumos com a colheita futura — milho, soja e outros grãos.

O ciclo funciona como um relógio:

  1. Navios saem do Brasil carregados de grãos;
  2. Chegam ao Irã;
  3. Retornam com ureia a preço competitivo.

Com o estreito ameaçado, essa “via de mão dupla” fica travada e desmonta toda a estrutura de logística que vinha garantindo custos mais baixos ao produtor.

O problema, no entanto, não para no campo: milho e soja também são base da ração animal.
Se o fertilizante encarece, sobem os custos da pecuária — e aí vêm aumentos no frango, ovos e carne bovina.

 Custos sobem, preços caem: o aperto no produtor

O cenário para o produtor brasileiro é de forte compressão de margens:

  • A ureia subiu de US$ 350 para US$ 550, após o início dos ataques.
  • A saca do milho caiu para R$ 50–60.
  • A soja recuou para cerca de R$ 140, longe dos R$ 200 do passado recente.

Enquanto isso, os custos sobem também pela tributação: mudanças no PIS/Cofins e no Funrural retiraram alíquotas zero de fertilizantes e sementes.

O Índice de Poder de Compra de Fertilizantes (IPCF) já mostrava que o produtor precisava de mais sacas de grãos para comprar a mesma quantidade de adubo — antes mesmo do conflito se intensificar.

Com essa equação desequilibrada, muitos produtores optam por reduzir tecnologia: aplicar menos fertilizante.
Isso resulta em menor produtividade e impacto direto na oferta futura de alimentos.

 Se o fornecimento de ureia parar, o que acontece?

Especialistas alertam que o Brasil pode enfrentar:

  • Redução abrupta na produtividade das lavouras;
  • Disputa global pela ureia com Índia e EUA;
  • Alta generalizada nos preços globais de fertilizantes;
  • Pressão inflacionária sobre alimentos no mercado doméstico;
  • Aumento ainda maior dos custos de crédito agrícola.

A China poderia ajudar a suprir parte da demanda, mas ainda prioriza o mercado interno. O movimento de reabertura chinesa ao mercado internacional só deve ocorrer a partir de agosto.

 O que o Brasil está fazendo agora?

Diante da ameaça, algumas ações emergenciais foram tomadas:

1️⃣ Acordo com a Turquia

O Ministério da Agricultura garantiu acesso ao território turco para trânsito e armazenamento de fertilizantes, criando uma rota alternativa a Ormuz.

2️⃣ Reativação da produção nacional de ureia

A Petrobras reabriu unidades em Sergipe, Bahia e Paraná.
A expectativa é que, somadas, possam atender até 35% da demanda nacional nos próximos anos.

3️⃣ Plano Nacional de Fertilizantes (PNF)

Criado em 2023, busca reduzir a dependência externa para 50% até 2050.
Mas especialistas destacam que a implementação ainda é lenta e depende de vontade política, especialmente para aprovar o Profert, programa que incentiva a modernização e a expansão da indústria nacional.

Um futuro que exige decisões rápidas

A guerra no Irã expôs uma fragilidade histórica do Brasil: a dependência externa para manter o campo funcionando.
Sem medidas estruturais (e não apenas paliativas) o país continuará vulnerável a conflitos internacionais, flutuações políticas e decisões de governos estrangeiros.

O agronegócio brasileiro é gigante.
Mas, diante da crise global dos fertilizantes, seus pés estão cada vez mais expostos.

Redação de:
Fonte:
Comentários

Deixe um comentário

Continue Lendo
Author picture

Jornalista: José Claudenir de Almeida

Centroeste News
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.