O trabalho doméstico no Brasil está passando por uma transformação silenciosa, e os números mostram isso com clareza. Em quase uma década, o país perdeu mais de 300 mil vínculos formais na área, uma queda de 21,1% entre 2016 e 2025, segundo dados do Ministério do Trabalho.
Por trás dessa estatística estão histórias reais de mudança: famílias que deixaram de contratar mensalistas, profissionais que migraram para o trabalho por diária e um setor que ainda carrega desigualdades históricas.
Em 2016, eram cerca de 1,64 milhão de trabalhadores domésticos com carteira assinada. Hoje, esse número caiu para 1,30 milhão. A redução não tem uma única causa, mas reflete uma soma de fatores que vêm redesenhando a forma como esse serviço é contratado no país.
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Um dos pontos centrais foi a ampliação de direitos com a chamada PEC das Domésticas, que equiparou a categoria aos demais trabalhadores formais. Apesar de representar um avanço importante, a medida também elevou custos e exigências para empregadores, o que dificultou a formalização em muitos casos.
A pandemia de COVID-19 agravou ainda mais o cenário. Durante o período, milhares de trabalhadores perderam seus empregos e precisaram buscar alternativas, muitas vezes na informalidade.
Hoje, cresce o número de profissionais que atuam como diaristas, prestando serviços por dia, sem vínculo formal. Em 2025, cerca de 309 mil já estavam registradas como MEI, modelo que oferece mais flexibilidade, mas menos proteção social.
Além disso, mudanças no estilo de vida também influenciam. Famílias menores, apartamentos mais compactos e a busca por mais privacidade têm reduzido a demanda por empregadas em tempo integral.
Mesmo com essas mudanças, o perfil da categoria permanece marcado por desigualdades. As mulheres representam quase 90% dos trabalhadores formais, e pessoas negras seguem como maioria. A faixa etária também chama atenção: há mais profissionais acima dos 40 anos do que jovens entrando na área.
A remuneração média atingiu cerca de R$ 2 mil em 2025, o maior valor recente, mas o aumento está diretamente ligado ao reajuste do salário mínimo, sem indicar, necessariamente, uma valorização estrutural da profissão.
Especialistas apontam que o desafio agora é equilibrar flexibilidade com proteção. Enquanto o setor se adapta a uma nova realidade, cresce a necessidade de políticas públicas que garantam direitos e valorizem quem está por trás do cuidado diário de milhões de lares brasileiros.