O cenário em Catia la Mar, uma das cidades mais castigadas pelo duplo terremoto na Venezuela, é de uma desolação que as palavras mal conseguem descrever. Yilsmaris Blanco, de 39 anos, traduz o sentimento de milhões ao observar o que restou de sua vizinhança: tudo veio ao chão. Enquanto o governo de Delcy Rodríguez oficializa a região como zona de desastre, o foco de quem sobreviveu está longe dos decretos e voltado inteiramente para os escombros, onde familiares e amigos ainda podem estar presos.
A tragédia foi desencadeada por dois tremores consecutivos, de magnitudes 7,2 e 7,5, que sacudiram o país na última quarta-feira. O balanço oficial já aponta ao menos 164 mortos e centenas de feridos, mas o número de desaparecidos sugere que a conta final será ainda mais dolorosa. Em La Guaira, região costeira que abriga o principal aeroporto do país, a destruição é onipresente. Prédios que antes abrigavam centenas de famílias agora são pilhas de concreto e ferro retorcido, e aqueles que permanecem de pé exibem rachaduras profundas que desencorajam qualquer tentativa de retorno.
Larry Rojas, morador de uma área com quase 200 torres residenciais, relata que o trauma roubou não apenas os bens materiais, mas a própria coragem de seguir em frente. Sem eletricidade e enfrentando a escassez de água, centenas de pessoas passam as noites nas ruas, temendo as mais de vinte réplicas que continuam a estremecer o solo. O medo é constante, alimentado pela escuridão e pelo som das sirenes que cortam o silêncio. Lisbeth Vasquez, que conseguiu escapar a tempo com sua família, reforça o alerta desesperado de que ainda há sobreviventes sob as estruturas colapsadas.
O trabalho dos socorristas é uma corrida contra o tempo e contra a falta de recursos. José Pacheco, chefe de operações do Grupo Rescate Unido de Venezuela, com três décadas de experiência, confessa nunca ter presenciado algo dessa magnitude. Para ele, a maior urgência agora é a chegada de equipamentos técnicos especializados que estão concentrados na capital, Caracas. Sem máquinas pesadas e ferramentas adequadas, o resgate manual torna-se uma tarefa hercúlea e angustiante para os profissionais e para os civis que, em um ato de desespero, tentam cavar com as próprias mãos.
Os relatos de quem viveu o momento do impacto são carregados de uma crueza impressionante. Antonio Bermúdez descreve como o prédio começou a desabar enquanto ele tentava se segurar nas paredes de sua sala. Ele sobreviveu, mas carrega as marcas físicas do desastre, tentando proteger uma perna ferida por uma placa de concreto. Assim como Larry e Yilsmaris, Antonio faz parte de uma população que agora depende da solidariedade e da agilidade da ajuda humanitária para ter o mínimo de dignidade em meio ao caos. O que se pede nas ruas de La Guaira não é apenas o reconhecimento oficial da tragédia, mas a presença real de máquinas, água e esperança.