O mapa político da América Latina acaba de perder mais uma de suas cores tradicionais. Com a recente derrota de Iván Cepeda na Colômbia, candidato apadrinhado pelo presidente Gustavo Petro, a ascensão de Abelardo de la Espriella consolida um movimento que parece não encontrar barreiras no continente. O que se observa é o fechamento de um cerco ideológico que coloca o governo brasileiro em uma posição de isolamento quase sem precedentes na história recente da região.
Desde o início de 2025, a balança pendeu drasticamente para a direita e a centro-direita, que saíram vitoriosas em todas as seis eleições disputadas em solo latino-americano. Países como Chile, Bolívia, Honduras e Costa Rica, além de Colômbia e Peru, agora seguem uma cartilha conservadora. Se olharmos para o retrovisor desde 2023, o cenário é ainda mais nítido, pois em dezesseis pleitos realizados, as forças de direita levaram a melhor em doze oportunidades. A esquerda conseguiu respirar apenas em redutos como México, Uruguai e Guatemala, além da controversa situação venezuelana.
Embora Brasil e México ainda sustentem as maiores economias e populações da região, representando mais de sessenta por cento do Produto Interno Bruto latino-americano, as forças conservadoras já detêm o controle de treze dos vinte países independentes. É um tabuleiro onde a narrativa de ameaça à democracia é frequentemente utilizada pela esquerda para tentar deslegitimar esses novos líderes. No entanto, muitos desses governantes evocam a máxima de Nelson Rodrigues ao defenderem que a liberdade é mais importante do que o pão, conquistando o apoio popular justamente ao questionar as conquistas de gestões progressistas anteriores.
Muitos analistas tentam creditar essa guinada ao retorno de Donald Trump à Casa Branca em janeiro de 2025. Contudo, o fenômeno é anterior e mais profundo. Líderes como Nayib Bukele em El Salvador, Javier Milei na Argentina e Santiago Peña no Paraguai já pavimentavam esse caminho muito antes da nova posse americana. Um detalhe curioso que acompanha esse movimento é a interrupção dos fluxos da agência internacional de ajuda dos Estados Unidos, a Usaid, que teria deixado de injetar recursos em organizações de esquerda na região, alterando o equilíbrio de forças nas campanhas locais.
Na América do Sul, o isolamento é ainda mais evidente. Com a captura de Nicolás Maduro e a transição na Venezuela para uma zona de influência direta de Trump, a esquerda se vê restrita ao Brasil, Uruguai, Suriname e Guiana. Diante desse tsunami conservador, a grande pergunta que paira sobre Brasília é se o presidente Lula conseguirá manter o PT no poder nas eleições de outubro ou se será a próxima peça a cair.
Os números mais recentes do Datafolha trazem um alento ao Palácio do Planalto, indicando que Lula mantém uma vantagem considerável sobre o senador Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A distância entre os dois cresceu após as revelações sobre as conexões do senador com o Banco Master e o financiamento de um filme sobre a trajetória de seu pai. Entretanto, a resiliência da oposição é notável. No cenário de segundo turno, a diferença cai para apenas quatro pontos percentuais, colocando os dois competidores dentro da margem de erro.
O cenário ainda é volátil, especialmente porque as pesquisas começam agora a captar o impacto de denúncias que atingem figuras centrais do governo no Senado, o que pode equilibrar a narrativa de escândalos financeiros. No jogo político da América Latina, onde o Brasil é considerado a joia da coroa, não há espaço para vitórias antecipadas. O tsunami que varre os vizinhos bate agora às portas brasileiras, e o resultado das urnas em outubro dirá se o país continuará sendo um reduto isolado ou se seguirá o fluxo do continente.