Os temporais que atingiram a Zona da Mata mineira deixaram ao menos 47 mortos, milhares de desabrigados e desalojados e um rastro de destruição em cidades como Juiz de Fora e Ubá. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a tragédia é reflexo direto da combinação entre eventos climáticos extremos e falhas históricas no planejamento urbano e na política ambiental.
O geógrafo Miguel Felippe, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, afirma que desastres dessa magnitude estão ligados às mudanças climáticas globais. Segundo ele, eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos, exigindo políticas públicas permanentes de prevenção e adaptação.
Oceano mais quente, chuvas mais intensas
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, Juiz de Fora recebeu, em apenas um dia, quase todo o volume de chuva previsto para fevereiro. O município está entre os que concentram maior proporção de moradores em áreas de risco no país.
O meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden, explicou que o Oceano Atlântico apresenta तापeraturas até 3°C acima da média na costa brasileira, aumentando a evaporação e a umidade transportada para o continente. Ao encontrar o relevo montanhoso da região, essa umidade se transforma em chuvas intensas. O fenômeno está associado ao aquecimento global, que potencializa extremos climáticos.
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Desigualdade e ocupação de risco
Especialistas apontam que os impactos mais graves se concentram em bairros periféricos, onde vivem populações de menor renda. A expansão urbana em encostas e áreas de várzea, muitas vezes impulsionada pela dinâmica do mercado imobiliário, empurra famílias para regiões mais vulneráveis a deslizamentos e enchentes.
Em Juiz de Fora, a cidade cresceu no vale do Rio Paraibuna e avançou para encostas suscetíveis a deslizamentos. Em situações de chuva intensa, o rio transborda e a água ocupa áreas urbanizadas que antes funcionavam como várzea natural.
Levantamento do jornal O Globo aponta redução significativa nos recursos da Defesa Civil estadual entre 2023 e 2025, período que coincide com o segundo mandato do governador Romeu Zema. O governo estadual não comentou os dados.
Soluções possíveis e adaptação
Especialistas defendem medidas estruturais e educativas para aumentar a resiliência urbana. Entre as propostas estão:
Controle rigoroso da ocupação de áreas de risco
Investimentos em contenção de encostas e drenagem
Construção de parques em áreas de várzea
Ampliação da permeabilidade do solo urbano
Planos de evacuação e treinamento comunitário
Experiências internacionais, como a do Japão, mostram que a preparação da população para evacuações rápidas reduz drasticamente o número de vítimas.
No âmbito federal, recursos foram aprovados para obras de contenção e macrodrenagem pelo Novo PAC, incluindo intervenções no projeto Juiz de Fora + 100. No entanto, parte significativa dos valores ainda aguarda liberação integral.
Um alerta para o futuro
Para os especialistas, a tragédia em Minas Gerais é um sinal claro de que o Brasil precisa integrar a pauta climática ao planejamento urbano e à gestão pública de forma permanente. A adaptação às mudanças climáticas deixou de ser uma escolha política e passou a ser uma necessidade urgente para salvar vidas.




