CentroesteNews
06/08/2025
A história de Izabella Barroso, que aos 32 anos foi surpreendida por um diagnóstico de câncer colorretal, resume uma realidade cada vez mais comum e esperançosa: o câncer, embora ainda grave, já não é mais uma sentença de morte. Com o avanço da medicina, da personalização dos tratamentos e do diagnóstico precoce, a doença caminha para ser encarada como uma condição crônica, semelhante ao que já ocorre com o HIV e a diabetes.
Izabella, hoje em remissão, não precisou passar por quimioterapia ou radioterapia. Foi operada duas vezes e mantém acompanhamento contínuo. “Foi devastador, mas o diagnóstico precoce me salvou. Hoje estou em remissão. A Izabella de antes não existe mais. Mas a de agora está viva. E cheia de planos”, diz.
Da sentença à convivência: o câncer como doença crônica
Para oncologistas como Stephen Stefani, da Oncoclínicas, o futuro do câncer está na cronificação, ou seja, na transformação de uma condição aguda e fatal em algo que se pode viver com controle por muitos anos. “O paciente pode não estar curado, mas vive com a doença sob controle, com qualidade de vida”, afirma.
Essa revolução é sustentada por três pilares:
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Diagnóstico precoce, que aumenta as chances de cura;
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Terapias personalizadas, que atacam mutações específicas e têm menos efeitos colaterais;
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Mudança no estilo de vida, com foco em alimentação, atividade física e acompanhamento constante.
Hoje, há pacientes com câncer metastático vivendo há mais de 10 anos com qualidade de vida — algo impensável até poucos anos atrás.
Medicina de precisão: tratamentos moldados para cada tumor
A nova oncologia está focada não apenas no tipo de órgão afetado, mas nas mutações genéticas do tumor. Isso permite escolher tratamentos mais eficazes e menos agressivos. No Brasil, três medicamentos já seguem essa lógica:
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Larotrectinibe, para tumores com fusão NTRK;
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Pembrolizumabe, para casos com alta carga mutacional;
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Enhertu, voltado a tumores com expressão do HER2.
Além disso, novas terapias têm se mostrado promissoras:
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Imunoterapia, que ativa o sistema imunológico;
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Terapias-alvo, que miram mutações específicas;
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Terapias conjugadas, que unem anticorpos e quimioterapia;
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Terapias teranósticas, que diagnosticam e tratam com precisão milimétrica;
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CAR-T cell, técnica que manipula células de defesa do próprio paciente (ainda restrita a certos tipos de câncer).
O desafio da juventude e dos novos hábitos
Casos como o de Izabella estão crescendo. Segundo estudos recentes, o câncer em pessoas com menos de 50 anos aumentou 79% nas últimas três décadas. A maioria desses pacientes não tem histórico familiar. Fatores como sedentarismo, má alimentação, obesidade, poluição e até microplásticos são apontados como causas possíveis.
Para o oncologista Vladmir Cordeiro de Lima, do A.C. Camargo Cancer Center, o envelhecimento da população também é parte do fenômeno. “Câncer é um erro da divisão celular, algo inerente ao envelhecimento. Não dá para falar em erradicação total”, alerta.
Avanços restritos a quem pode pagar
Apesar do avanço científico, o acesso à cronificação ainda é desigual no Brasil. Muitas das terapias mais modernas não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). E mesmo os tratamentos convencionais, como exames, biópsias e cirurgias, enfrentam filas e carência de estrutura.
“O SUS tem uma oncologia ainda muito básica. Falta investimento, acesso e equidade”, afirma Rodrigo Pinheiro, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica. Hoje, o câncer é a segunda principal causa de morte no país, mas menos de 4% do orçamento da saúde é destinado à oncologia.
Sobrevivência com qualidade de vida
Para Izabella, que hoje reconstrói sua rotina ao lado de uma nova companheira, o caminho ainda é de superação, mas também de esperança. “Tem dias em que o medo bate. Mas estou aqui, voltando a viver. Planejando o futuro.”
Aos poucos, histórias como a dela revelam um novo tempo para pacientes oncológicos: viver com o câncer, e não apenas contra ele.