Pela primeira vez na história, duas das maiores empresas de tecnologia do mundo (Meta e Google) foram condenadas por danos à saúde mental relacionados ao uso de redes sociais. O julgamento, realizado em Los Angeles, terminou nesta quarta-feira (25/3) com a decisão de que Instagram e YouTube contribuíram para prejuízos psicológicos graves em uma jovem norte-americana que usou as plataformas desde a infância.
O caso, acompanhado de perto por especialistas em tecnologia, direito digital e saúde pública, pode abrir um precedente de alcance mundial e intensificar debates sobre responsabilidade das plataformas no bem-estar dos usuários.
Um julgamento que pode mudar a indústria tecnológica
A jovem (identificada apenas como Kaley, de 20 anos) relatou ter sofrido danos psicológicos após anos de uso compulsivo das redes. Segundo a acusação, os aplicativos foram deliberadamente desenhados para criar dependência, com mecanismos como:
- rolagem infinita (infinite scroll);
- autoplay de vídeos;
- sugestões de conteúdo orientadas por algoritmos;
- notificações que reforçam o retorno contínuo ao aplicativo.
A defesa argumentou que tais estratégias têm como objetivo prolongar o tempo de uso, especialmente entre jovens e crianças, segmento considerado mais vulnerável. O júri aceitou essa linha por unanimidade, algo inédito nos Estados Unidos.
Kaley relatou ter desenvolvido ansiedade, depressão e distorções sobre sua própria imagem corporal ao longo da adolescência. O tribunal avaliou que as plataformas contribuíram significativamente para esses danos.
Entre na comunidade de WhatsApp do Centroeste News e receba notícias em tempo real
Indenização milionária e alerta para outras empresas
A condenação estabelece que a Meta e o Google devem pagar:
- US$ 3 milhões por danos morais;
- US$ 3 milhões adicionais como multa punitiva.
Ainda há possibilidade de recurso, mas especialistas afirmam que a decisão já marca um divisor de águas e pode estimular milhares de novas ações no país.
O advogado da vítima destacou a relevância histórica do julgamento:
“Este veredito demonstra como os júris reagem ao compreender que escolhas de design podem prejudicar jovens usuários. É um piloto para inúmeros casos semelhantes.”
Snapchat e TikTok, que também eram réus, fecharam acordo extrajudicial antes do início do julgamento.
Reações das big techs
A Meta afirmou que “discorda respeitosamente do veredicto” e que avalia caminhos jurídicos para recorrer.
O Google não se manifestou de forma detalhada, mas também indicou que buscará reverter a decisão.
Analistas lembram que ambas as empresas têm enfrentado crescente pressão regulatória em países da Europa, Ásia e América Latina, onde avanços legislativos buscam impor limites à atuação de algoritmos e à coleta de dados de menores.
Segundo revés da Meta em menos de 24 horas
A condenação ocorre um dia depois de outro golpe judicial contra a Meta. Um tribunal do Novo México ordenou que a empresa pague US$ 375 milhões por falhas na proteção de crianças contra exploração sexual em suas plataformas.
A ação, movida pelo procurador-geral Raúl Torrez, acusa a companhia de:
- práticas enganosas e abusivas;
- não alertar adequadamente sobre riscos a menores;
- permitir brechas para atuação de criminosos digitais.
A Meta nega as alegações e também promete recorrer.
Impacto global e possível efeito cascata
A decisão de Los Angeles é vista como um marco porque:
- abre caminho para processos de grande escala;
- pressiona empresas a reverem mecanismos de recomendação e engajamento;
- reacende debates sobre saúde mental, especialmente na adolescência;
- pode influenciar legislações internacionais, inclusive no Brasil.
Pesquisadores e organizações de segurança digital avaliam que estamos diante do início de uma nova era jurídica para redes sociais — uma fase na qual o design das plataformas pode ser considerado diretamente responsável por efeitos comportamentais e emocionais.