O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que alegava estar afastado dos negócios de seu escritório de advocacia desde 2018, vê-se agora no centro de novas revelações que contrariam sua versão. Um contrato de 2019, assinado por ele mesmo, mostra a venda de precatórios de seu escritório a um fundo conectado ao “ecossistema Master”, uma rede que está sob investigação da Polícia Federal por supostas fraudes. Essa descoberta aprofunda os questionamentos sobre os vínculos do governador com personagens e instituições sob escrutínio da Justiça.
Uma nova luz se acende sobre os intricados caminhos dos negócios do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), lançando dúvidas sobre suas declarações públicas e aprofundando sua conexão com o nebuloso “ecossistema Master”, alvo de investigações federais. Enquanto Ibaneis afirmava ter se distanciado dos negócios de seu escritório de advocacia desde 2018, ano em que foi eleito, um contrato milionário datado de dezembro de 2019 revela sua assinatura pessoal em uma transação com um fundo diretamente ligado a figuras que, meses depois, se tornariam sócias de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e estão hoje na mira da Polícia Federal.
A negociação em questão envolveu a venda de direitos sobre R$ 4,4 milhões em honorários de precatórios do Ibaneis Advocacia e Consultoria para o fundo BLP PCJ VII, administrado pela Planner, uma corretora que na época era controlada por Maurício Quadrado. Este mesmo Quadrado se tornaria sócio de Daniel Vorcaro pouco tempo depois. Mais do que isso, a representação do fundo na negociação ficou a cargo de Artur Martins de Figueiredo, também citado em investigações da PF e diretor de uma holding, a Banvox, que teve papel crucial na capitalização do Banco Master com bilhões de reais. Os reais cotistas desse fundo não são publicamente conhecidos, adicionando uma camada de opacidade à transação.
Este não é o primeiro elo revelado. Anteriormente, a imprensa já havia exposto a venda de R$ 38 milhões em honorários de precatórios para um fundo da Reag em maio de 2024, e um segundo contrato de R$ 10 milhões, também com um fundo da Reag, no qual o próprio Ibaneis assinou em nome de seu escritório. A existência dessa terceira transação, que remonta ao primeiro ano de seu mandato como governador, desenha um claro “modus operandi”: a venda de honorários de precatórios como uma forma recorrente de estabelecer negócios com o intrincado ecossistema do Master. Somados, os valores desses três contratos chegam a R$ 52,9 milhões em honorários cedidos pelo escritório de Ibaneis, hoje comandado por seu filho, Caio Barros, dos quais o escritório teria recebido cerca de R$ 12 milhões, um valor menor devido aos descontos inerentes a esse tipo de operação de antecipação.
A versão do governador de que estaria afastado dos negócios é diretamente confrontada pelo documento de 2019, onde sua assinatura aparece como avalista da negociação. Nesse papel, Ibaneis atuaria como responsável solidário caso o escritório não cumprisse o acordo, demonstrando um envolvimento direto que contradiz suas alegações. A autenticidade da assinatura foi inclusive reconhecida em cartório. Além dele, sua empresa Ibaneis Agropecuária e Administradora de Bens Patrimoniais, e outros dois sócios do escritório na época, Marlúcio Lustosa Bonfim e Johann Homonnai Júnior, também figuram como avalistas.
O escritório, ao ser questionado, defendeu a negociação como um “negócio jurídico regular e lícito”, prática comum no mercado para antecipar recebimentos de ações judiciais contra entes públicos. A Planner, por sua vez, declarou ter atuado apenas como representante legal do fundo, sem intermediação entre as partes. Contudo, a teia de fundos e gestoras envolvidas nos negócios com o escritório de Ibaneis está arrolada em operações como a Compliance Zero e a Carbono Oculto, que investigam lavagem de dinheiro de facções criminosas e fraudes em instituições financeiras, incluindo a Reag e a Trustee, esta última fundada por Maurício Quadrado após sua saída da Planner e atual administradora do BLP PCJ VII.
Vale lembrar que, à época do contrato de 2019, o Master ainda se chamava Máxima, e Daniel Vorcaro acabara de adquiri-la, com aprovação do Banco Central. Maurício Quadrado só se tornaria sócio de Vorcaro meses depois. A parceria se desfez em 2024, quando o Master já enfrentava problemas de liquidez e Quadrado teve seus bens bloqueados na Operação Compliance Zero.
O chamado “ecossistema Master” é um foco central das investigações da Polícia Federal e do MPF, suspeito de sustentar um esquema complexo que teria desaguado em vendas de carteiras fraudulentas ao BRB e letras financeiras para fundos de previdência estaduais e municipais. A Banvox, empresa de participações representada por Artur Martins de Figueiredo, que assinou o contrato com Ibaneis, teve como principal investimento o Master, com 22% de participação em 2024, após um aporte de R$ 2,5 bilhões do empresário Nelson Tanure. A PF e o MPF suspeitam que Tanure seja o sócio oculto do Master, usando operações complexas para dificultar a identificação dos verdadeiros acionistas, uma linha de investigação que já existia desde 2025. Maurício Quadrado, inclusive, tornou-se acionista do BRB em 2025, período em que o banco de Brasília negociava a compra do Master com entusiástico apoio de Ibaneis Rocha – negócio vetado pelo Banco Central, mas que hoje é peça-chave nas investigações de fraude.
A história da Planner, corretora envolvida na transação de 2019, é igualmente marcada por controvérsias judiciais, incluindo operações como a Lava-Jato, Greenfield (fraudes em fundos de pensão) e até a CPI dos Correios, onde movimentou dinheiro do esquema do mensalão. Em 2017, a Operação Encilhamento da PF apontou seu envolvimento em fraudes com aportes de fundos de previdência municipais, um modelo que guarda semelhança com o que o Master é acusado de replicar anos depois. Todo esse contexto complexo e os novos contratos revelados reforçam a necessidade de transparência e aprofundamento das investigações sobre os elos entre o poder público e esse intrincado universo financeiro sob suspeita.