Em 2021, a jornalista Adriana Negreiros rompeu o silêncio ao publicar A Vida Nunca Mais Será a Mesma, no qual narra seu trauma de violência sexual e reflete sobre as bases culturais que sustentam o estupro no Brasil. Em 2003, Adriana foi vítima de um sequestro-relâmpago seguido de estupro. Atacada por um desconhecido em um estacionamento, foi levada a um matagal. “Meu caso, envolvendo um ataque em um lugar escuro e por alguém desconhecido, é muito atípico”, relembra. “Estupros acontecem, na maioria das vezes, na intimidade, por pessoas do ciclo de confiança da vítima.”
Essa constatação ganha força quando analisado o caso recente no Rio de Janeiro que chocou o país. Uma adolescente de 17 anos foi vítima de um estupro coletivo descrito pela polícia como uma “emboscada planejada”. Convidada a um apartamento em Copacabana pelo ex-namorado, ela se viu atacada após outros homens entrarem no quarto onde mantinha uma relação consentida com ele. As violências física e sexual relatadas partiram de todos os presentes na cena. Exames periciais confirmaram lesões compatíveis com agressão, incluindo marcas genitais e corporais. Entre os acusados, estão jovens ligados a instituições de prestígio, como o Colégio Pedro II, e ao ambiente político.
Para Adriana, o caso escancara a dinâmica predominante: “É mais comum que meninas sejam violentadas por pessoas em que confiam. Isso torna o crime ainda mais cruel e os traumas mais profundos, pois quebra a segurança emocional”. Essa reflexão desmistifica a ideia do agressor como um “monstro distante”. Pelo contrário, os números mostram que muitos crimes são cometidos em contextos íntimos, dentro de casa, ou por pessoas conhecidas.
O Brasil enfrenta um cenário alarmante de violência sexual. Em 2024, foram registrados 87.545 estupros e estupros de vulnerável, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A maioria das vítimas – cerca de 87,7% – é composta por meninas e mulheres. Adriana acredita que o caminho para mudar essa realidade depende de conscientização e ações que envolvam diretamente os homens. “Essa conversa não pode ser exclusivamente das mulheres. Trata-se de um problema deles também. Precisamos trazê-los para essa discussão.”
O caso da adolescente do Rio acentuou nuances da cultura do estupro em grupos masculinos. A escritora destaca o caráter de desumanização implícito na agressão coletiva: uma ação que reduz a vítima a um objeto descartável, alimentada por valores distorcidos de individualismo e ausência de empatia. “Temos uma romantização do antissocial e do desrespeito às relações humanas. Isso contribui para a depreciação da vítima e a normalização dessas violências.”
Adriana também alerta sobre os desafios das vítimas de estupro ao lidarem com a vergonha e o julgamento social. Reações como paralisia durante o ataque, vistas como estratégias de sobrevivência, muitas vezes são usadas para culpabilizar quem sofreu a violência. “Essa ideia de que ‘se ela não reagiu, consentiu’ ainda é cruelmente empregada”, lamenta.
Embora campanhas e legislações como a Lei Maria da Penha tenham gerado avanços importantes, o aumento de casos brutais e a naturalização do discurso misógino, especialmente nas redes sociais, demonstram que há um longo caminho pela frente. Adriana defende que o combate ao estupro depende tanto do fortalecimento de políticas públicas quanto da reconstrução de laços comunitários. “Não podemos permitir que a raiva, legítima, nos leve ao justiçamento. Precisamos de respostas institucionais firmes e de uma sociedade que recupere a empatia e a humanidade.”
A vítima do caso do Rio foi exposta a um dilema que mistura vergonha e superexposição. Para Adriana, é imprescindível que haja acolhimento e respeito ao tempo de cada sobrevivente para processar o trauma. “Essas dores não desaparecem, mas também não definem uma vida para sempre. Viver, recuperar a confiança, é a resposta mais forte que podemos oferecer.”




