CentroesteNews
21/11/2025
O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) anunciou que irá representar o delegado da Polícia Civil Pablo Carneiro na Corregedoria da instituição após um episódio considerado “grave e sem precedentes” pela entidade. O delegado deu voz de prisão a um médico residente em um hospital particular de Cuiabá, na quarta-feira (19), sob acusação de exercício ilegal da medicina, uma imputação que o CRM afirma ser totalmente infundada.

O profissional foi conduzido à delegacia, ouvido e posteriormente liberado. A ação, porém, desencadeou forte reação da categoria médica e motivou uma série de providências institucionais.
Além da denúncia formal à Corregedoria, o Conselho irá oficiar o governador Mauro Mendes (União) e a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), solicitando medidas urgentes contra o delegado. Um comunicado também será encaminhado à Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), com pedido para que o caso seja acompanhado pelos parlamentares.
O presidente do CRM-MT, Diogo Leite Sampaio, classificou a prisão como um “absurdo” e uma “grave violação de direitos e prerrogativas profissionais”.
“Isso é claramente um abuso de autoridade. Trata-se de um médico formado, regularmente inscrito e apto a exercer sua profissão, preso sob uma alegação absurda e fantasiosa. Ele foi vítima de violência institucional, e o Conselho irá agir com firmeza”, declarou.
O delegado estava no hospital para uma consulta pré-cirúrgica. O médico, residente em anestesiologia, apresentou-se como integrante da equipe responsável pela anestesia no procedimento ao qual o paciente será submetido.
Após o atendimento, o delegado deixou o consultório, mas retornou minutos depois e deu voz de prisão ao profissional, alegando exercício ilegal da medicina.
Funcionários e outros médicos tentaram entender a acusação, mas, segundo relatos, o delegado chegou a ameaçar uma médica ao afirmar que “caberiam mais pessoas presas na viatura”. O caso foi considerado, internamente, um episódio de intimidação e violência institucional.
Na delegacia, após ser informado de que não havia qualquer irregularidade, o delegado teria tentado mudar a tipificação do suposto crime, o que não prosperou diante dos depoimentos e documentos apresentados.
Sampaio reforçou que médicos residentes são profissionais formados, aprovados em processo seletivo, inscritos no CRM e habilitados legalmente para atender, sempre sob supervisão.
“A residência é uma pós-graduação prática e teórica. A atuação do médico observou integralmente a legislação. Nada justifica a ação do delegado. É uma das situações mais absurdas que já vi”, afirmou.
O CRM-MT também denunciou outro ponto grave: o delegado recolheu prontuários médicos do consultório, alegando que seriam provas. A conduta, segundo o Conselho, viola o sigilo médico-paciente e desrespeita normas do Conselho Federal de Medicina, além de decisões do Supremo Tribunal Federal que condicionam o acesso a prontuários a uma decisão judicial.
“A quebra de sigilo é gravíssima. Haverá representação também por isso”, disse o presidente do CRM.
O Conselho lembrou que episódios de abordagem inadequada a médicos têm sido registrados em outras regiões. Em maio, uma médica em Goiás foi acusada injustamente de exercício ilegal da profissão, gerando repercussão e cobrança formal do Conselho Federal de Medicina ao governador Ronaldo Caiado (União).