O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu rejeitar uma proposta apresentada pelos Estados Unidos que previa o envio de estrangeiros capturados em território americano para cumprir pena em prisões brasileiras. A proposta foi apresentada durante negociações com a administração do presidente Donald Trump sobre cooperação internacional no combate ao crime organizado.
A ideia fazia parte de um conjunto de contrapropostas dos Estados Unidos ao plano apresentado pelo Brasil no ano passado, quando Lula sugeriu ampliar a colaboração entre os dois países para enfrentar redes criminosas que atuam além das fronteiras.
Segundo diplomatas brasileiros envolvidos nas negociações, o governo avalia que alguns pontos apresentados por Washington são incompatíveis com a legislação brasileira.
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Prisões brasileiras não receberiam estrangeiros
Entre os pontos rejeitados está a possibilidade de que estrangeiros detidos nos Estados Unidos sejam transferidos para cumprir pena no Brasil. Interlocutores do governo afirmam que esse tipo de acordo não está previsto no ordenamento jurídico brasileiro.
Além disso, especialistas avaliam que a medida poderia criar desafios logísticos e jurídicos para o sistema penitenciário nacional, que já enfrenta superlotação em diversas unidades.
Compartilhamento de dados também gera impasse
Outro ponto sensível envolve o pedido americano para que o Brasil compartilhe dados biométricos de estrangeiros que solicitam refúgio no país.
Autoridades brasileiras argumentam que esse tipo de compartilhamento pode entrar em conflito com a Lei Geral de Proteção de Dados, legislação que estabelece regras rígidas para o uso e a transferência de informações pessoais.
Por isso, o governo também rejeitou esse item nas conversas iniciais.
Facções criminosas entram na discussão
Entre as propostas dos Estados Unidos também estaria a apresentação de um plano brasileiro para eliminar facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.
Diplomatas brasileiros afirmam, no entanto, que o país já possui operações e programas estruturados para combater essas organizações, muitas vezes em cooperação com agências internacionais.
Além disso, autoridades destacam que o documento apresentado pelos EUA não menciona classificar essas facções como organizações terroristas, uma discussão que já apareceu em outros momentos nas relações bilaterais.
Negociação continua
Apesar da recusa a alguns pontos, o governo brasileiro afirma que as negociações fazem parte de um processo diplomático normal e que divergências são comuns nesse tipo de diálogo.
A conversa entre Lula e Trump no final do ano passado abriu espaço para novas tratativas sobre segurança internacional e também sobre temas econômicos, incluindo comércio e tarifas.
Nos bastidores, diplomatas avaliam que o mais importante é manter o canal de diálogo aberto, especialmente diante do crescimento de organizações criminosas com atuação internacional.
Enquanto isso, o Brasil segue defendendo uma cooperação baseada em troca de informações e operações conjuntas, mas sem abrir mão de sua legislação e autonomia.